sábado, 15 de dezembro de 2018

O filho deveria ler O Globo online no Chile

O cônsul chinês, hoje em O Globo, mandou um recado elegante ao presidente eleito. Em descrição minuciosa, expõe atividades, recursos, áreas e projetos, na escala à altura dos dois paises, concluindo com a intenção manifesta de que nada os perturbe no futuro.

Espero que, antes do pai, o filho encontre um tempo no Chile, em meio aos afagos da recepção dos herdeiros de Pinochet, e leia O Globo. Agora, online, fica fácil. Mas, o texto é muito grande, excede o número de toques de um tuíte. Seja como for, ainda que em mandarim traduzido para o digital, o cônsul certamente enfrentaria a má-vontade do chanceler brasileiro. O filho não gosta de nada que cheire a comunismo. É provável que, nem o embaixador Ernesto, seu futuro assessor, o convenceria sequer a dar uma olhada no título do artigo. Sabe muito bem, preparado que está a ler nas entrelinhas e perceber ciladas, que o marxismo cultural é capaz de tudo, até de travestir-se de apelos a negócios da china. Do que precisamos mesmo é da "democracia direta" via facebook do pai, rezar para a alma de Pinochet e pedir a Jesus que apareça mais vezes em outros lugares do nosso Brasil e não apenas no alto do galho da goiabeira do quintal da casa da Ministra.

SRN


sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O Baú da Felicidade não abre mais na Globo

A insistência afirma-se debalde, quando o destino está selado e terrífico.Debalde, porque me lembrei de Graciliano. Em vão, em português mais claro, já que de nada parece adiantar a trégua: devem estar encardidas as bandeiras brancas dos emissários enviados pelo Globo ontem, quinta, 13/12. A data também desagrada. Afinal, ao destinatário da embaixada a ditadura que o AI-5 consagrou só errou por não ter assassinado na escala necessária para limpar do perigo vermelho o nosso Brasil, com Deus acima de todos do alto do galho de uma goiabeira caipira.

Até o Veríssimo, muito constrangido, passou o pano encardido, tentando cobrir a vergonha apelando para um histórico cartunista do Post. Merval, oficial e porta-voz de sempre, deixando para Sardenberg, entretanto, a ideia síntese da casa:

"(...) ao menos, por ora, é votar a agenda do presidente, deixando claro que é a agenda dele nos casos de temas mais controvertidos. Algo assim: olha pessoal, a gente não gosta muito dessas reformas, mas o presidente está pedindo..."

E agora que o baú da felicidade foi aberto em outro canal, igualmente poluído como o tietê, com Bolsonaro anunciando que revisará (vejam como o "capitão" sabe usar eufemismos) as verbas de publicidade da Caixa Econômica e do Banco do Brasil?

SRN


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Bolsonaro não é Gandhi

Clássicos da Política, de Francisco Weffort, faz parte da bibliografia introdutória em história e ciências sociais. Clássico é clássico justo porque continua válido. E Hobbes, inglês do século XVII, integra o volume um com referências a Leviatã. Primeiro contratualista, enxergava o estado de natureza como guerra civil, reconhecia a necessidade do Estado, absorvendo prerrogativas, regulando a comunidade, reservando-se a violência. Bolsonaro, na Aman, pode não ter lido Hobbes, ou se leu, devia achá-lo literatura barata. Segundo o ex-capitão e deputado, todos temos direito de acesso livre às armas. Não é só o bandido no ônibus, mas também os passageiros, prontos para reação necessária. Mas, o que importa agora é repudiar a violência como recurso político, sem, entretanto, abrir mão de contextualizá-la e falsificar a realidade. A facada em Bolsonaro pode ter sido apenas uma ação isolada. O fato, porém, não é, faz parte de uma construção, um discurso social com Bolsonaro em posição de protagonista. O desequilibrado que o atacou está imerso no ambiente de ideias políticas que pregam o fuzilamento de Fernando Henrique, a suspeição quanto à veracidade dos tiros na caravana de Lula, a limpeza à bala dos esquerdopatas do Acre para a Venezuela.


Bolsonaro não é Gandhi. Ou a camisa preta com desenho de um fuzil de um dos seus seguidores em vigília e oração na porta do Albert Einstein lembra a bata do líder pacifista assassinado?

SRN

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O Globo não será um NYT

Assinante de O Globo, decidi-me pelo impresso, diário. Julguei que a cobertura dos porões clandestinos de Temer representava um marco, muito mais do que a contrição revisionista pelo apoio à ditadura, em editorial que não cansa de ser usado por Bolsonaro, de resto, como ironia. Não vejo como, a propósito, na cobertura diária mais do que evidente, da piada que parte dos cariocas inventou pra se divertir com o interior paulista receber de O Globo o tratamento que o New York Times conferiu ao original norte-americano. "Pode ser um conforto limitado nesta época caótica, mas os americanos devem saber que há adultos na sala" é parte do trecho de fonte anônima do governo do Donald que o NYT resolveu publicar pesando o interesse público e concluindo "a única maneira de entregar uma perspectiva importante aos nossos leitores." E o que faz O Globo? Diante de um irresponsável, leviano, até infantil, de que é exemplo o episódio da "metralhadora" no Acre, prestes a ameaçar ir ao segundo turno, prefere investir contra a UFRJ apenas para não afastar-se do manual de regras que obriga as pautas a trazerem sempre a criminalização da política e a desqualificação de quem discorda de que o Contrato Social não cabe mais no PIB. Digamos que haja, de fato, crítica a ser feita à reitoria da UFRJ. Mas, certamente, nada tem da leviandade que o jornal demonstra tentando imputar a filiação política do reitor ao PSOL, bem como aproveitar também o incêndio do Museu Nacional ao fato deste não estar entregue exclusivamente ao mercado.
Certo, O Globo é uma empresa, com interesses de mercado. Ocorre que trata-se também de um tipo muito especial de empresa, a respeito de cuja mercadoria podemos dizer que é muito melhor comerciada nos termos embalados pelo Times, ou para recuarmos no tempo, aqui mesmo na nossa Cidade, no clássico JB, igualmente liberal. 
Ciro não é Brizola, cuja presença faz falta pela estatura em meio a tantos nanicos de um contexto mesquinho no qual a Bíblia é mais citada em política do que a Constituição. Seria bom vê-lo eleito. Como seria bom também em que, mudada a realidade, cabe o revisionismo da má avaliação legada pelo Lulismo conciliador. Ou "Lula livre" ou "Lula mito". Cassada a candidatura, negada a liberdade, Lula alimentará o próprio mito, "virando cada vez menos uma pessoa e mais e mais uma ideia", preso em Curitiba. Não admitirá ser substituído na chapa. Pouco importa a vitória de Haddad. Ou "Lula livre" ou Lula na oposição, preso, até sua prisão constituir um fato político insuportável, inviabilizando o governo de quem quer eleito. Para o Brasil, "Lula mito" é melhor do que a candidatura de Haddad. Um questionamento e uma trava ao avanço de uma ordem autoritária, tirante à barbárie. Já ajuda.
SRN

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

O debate sobre as "fake news" está correto?

Com a escala dos meios digitais, a imprensa-empresa perdeu o controle de pautar o debate público, e o puritanismo farisaico com "fake news" é a desculpa conveniente pra bloquear qualquer opinião que não tenha o mercado como prioridade . 

Ou acaso não se trata de "narrativa" única desqualificar quem recusa aceitar que o Contrato Social da Constituição de 88 não cabe mais no PIB?

SRN

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Ciro abandona a ambiguidade

Ter uma posição progressista hoje equivale a acumular mais um problema: a suspeição de ser um "influenciador" assalariado do Lulismo.

Brizola tinha razão quanto à existência de uma esquerda de que a direita gosta.

Ciro - aspirante, de resto, a candidato do trabalhismo histórico - faz o movimento correto, ao dirimir quaisquer dúvidas relativamente ao eleitorado de Bolsonaro. Sua ambiguidade incomodava. Parecia que apostava em uma verossimilhança que conta muito em contexto novo de peso eleitoral das redes sociais. Agora usou o estilo agressivo na direção justa. O político antes era um sabonete que precisava ser bem vendido. Hoje basta a imagem em jpeg da embalagem escaneada e publicada para as curtidas da bolha e dos comentários de ódio. Ciro fez POLÍTICA (assim mesmo, em caixa alta), quando reconhece e diz com todas as letras que o eleitor de Bolsonaro quer um país sob um Estado que aparte, discrimine, torture e mate.

     SRN