terça-feira, 14 de agosto de 2018

"Um país com mais armas e violência" do que imaginava Adoniran



Conforme os gráficos do Ministério da Saúde, divulgados na reportagem de hoje de O Globo, Um país com mais armas e violência, a leitura relevante permite estabelecer relações diretas entre regulação e homicídios.

Antes do Estatuto do Desarmamento (2003), em apenas um ano (1999-2000), um salto abrupto, a inclinação do gráfico quase se transforma numa ortogonal, indicando a progressão exponencial, absurda, de homicídios. 

Após uma queda igualmente vertiginosa, verificada no outro gráfico, o de novas armas, após o Estatuto, já a partir de 2004, começa uma lenta ascensão, com um leve recuo entre 2005-2006, para um comércio intenso alcançando, entre 2014-2015, praticamente um paroxismo. 

Comparadas as respectivas e correspondentes temporalidades, os gráficos levam à conclusão evidente de que há uma relação direta entre o aumento dos quantitativos de armas e de homicídios, de que são exemplos os dados do ano anterior (1999-2000) e posterior ao Estatuto (2003), quando o número de homicídios se estabelece num patamar muito alto, tributário ao elevado estoque de armas para pessoas físicas. Entretanto, o Estatuto, se não impede o comércio intenso de armas, ao menos impõe severas restrições ao seu uso, conforme indica a estabilização, embora alta, dos homicídios, restrições especialmente significativas neste momento de vigência de uma pauta reacionária, de fariseus da antipolítica, estimulada pelo investimento na desilusão do senso comum com o processo democrático combinada ao acirramento da criminalidade urbana 

Na mesma página, uma outra reportagem com as propostas dos presidenciáveis para o tema. De resto, demagogos não causariam problema maior, se limitados àqueles cujo traço nas pesquisas revela a resposta irônica ao plágio com as siglas alheias. Irresponsável e leviano, entretanto, o candidato com alguma viabilidade que, diante de tal quadro, prega o faroeste caboclo. 

Seria razoável imaginar que o eleitor da classe média carioca, devidamente armado, teria a sua casa como um novo alvo: certamente aumentará o número de roubos, com violência e morte, para, junto com o produto roubado, exigirem também a arma de proteção da família.

SRN

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Bolsonaro não ilude como bufão

Há semanas, em O Globo, Veríssimo escreveu que Bolsonaro é o candidato que não engana e quem vota nele quer mesmo um Estado que exclua, torture e mate, como na ditadura militar. 

O Roda Viva, pois, era mais um "like". 

Bolsonaro certamente combinou com a própria assessoria os "memes" que iria fabricar no centro da roda e que repercutiriam no reforço do personagem autoritário bem ao gosto dos seus adeptos. 

Está na hora de acabar com a ilusão de bufonaria. E é o papel da Imprensa. 

Bolsonaro e seus eleitores são impermeáveis a quaisquer argumentos. Expô-los à razão nunca funcionou em circunstâncias históricas semelhantes, dominadas pela truculência e sentimentos baratos e fascistas têm sucesso justo porque investem na vingança - facilitário sempre conveniente à corrupção, violência e antipolítica em que vivemos. Bolsonaro não pode usar, como quer,  as liberdades públicas para, primeiro, ameaçá-las, como faz agora em campanha, para, adiante, matá-las, caso eleito. 

Vida que segue, como dizia o grande carioca por afeto, João Saldanha...

SRN




domingo, 22 de abril de 2018

A continuidade do Estado do bem-estar

Corrupção e violência fazem parte hoje da agenda do chamado "Estado do bem-estar", cuja construção vem desde 86, com a eleição (aliás, não suficientemente explicada como deveria) para a constituinte e, ao final, a própria Constituição de 88. Lula fez parte deste processo, deu a sua contribuição que hoje só se ampliaria se não insistisse na versão, lamentavelmente, encampada por Boulos, de que não entende nada quem vê na sua prisão apenas uma disputa eleitoral e não um um risco à democracia. O desmonte do projeto do Estado democrático de direito - soberania, cidadania, respeito à dignidade da pessoa humana, ao valor social do trabalho, da livre iniciativa e pluralismo político - vem bem acondicionado, embalado para presente e com cartão manuscrito onde se lê: "a Constituição não cabe mais no PIB".

O risco, que é uma possibilidade, vem de outra fonte, está na expansão de uma direita agressiva e retrógrada, pouco a pouco referência para a insegurança e o medo cotidianos dos que vivemos, por exemplo, na nossa Cidade. 

A corrupção também. Descurada, considerada resquício farisaico que frequenta a mentalidade mesquinha de classe média, vale questioná-la, impondo duvidar da tese da falta de compromisso com a moral de uma ordem que se quer superar. Certo, corruptos são a autoridade e o empresário, cúmplices. Expropriação é outra coisa, quando praticada em favor da hegemonia que libertará o povo brasileiro. 

Creio que, neste ponto, amadurecemos.

SRN


sexta-feira, 20 de abril de 2018

Invertendo a seta do tempo

O futuro não é mais o destino, como, aliás, já queriam os pós-modernos. O vídeo da Fapesp, cujo link segue abaixo, evidencia uma possibilidade em poucos minutos agradáveis de assistir. Pois muito bem:
O que caracteriza o tempo? O que o define?
Sabemos o que é o tempo, podemos senti-lo, mas falta a definição que só pode vir da física que, adrede, não se recusa.
Entropia – eis a palavra para o fenômeno verificável empiricamente, pelo nosso sentimento, em substituição às palavras que não temos. Entropia é a desorganização, o enfraquecimento, a perda da capacidade de se manter estável. A exposição dá-se em corpos cujas temperaturas sempre passam do calor para o frio, da integridade para a fragmentação. Trata-se de um fenômeno irreversível: um copo de café perde calor, esfria, não volta a esquentar. Após jogá-lo fora, desequilibramos o copo à mesa, cai e, quebrado, não volta a integrar-se a partir dos seus cacos. Entropia.
O sentido do tempo, sempre para o futuro, é explicado, portanto, pela entropia.
Ocorre que, em sistemas microscópicos, formados pelos chamados “spins’, a organização destes elementos pode alterar a passagem habitual da temperatura em contato do quente para o frio. Uma configuração determinada, nesta mesma escala, pode fazer o “spin” frio transferir sua temperatura ao “spin’ quente, invertendo, assim, a linha do tempo, sem alterar, de resto, as leis da termodinâmica.
Observa-se também, em tais condições de laboratório, os "spins" possuindo o dom da ubiquidade, estando em dois lugares ao mesmo tempo. É um problema, sobretudo, se se conseguir resolver a escala e obtidas as condições necessárias, em que, aos "spins", pudéssemos nós, humanos, substituí-los. Na seta invertida do tempo, viajando, poderíamos, com a nossa massa, ocupar dois lugares ao mesmo tempo no espaço? Aí, então, seria, de fato, uma maravilha. Do ponto-de-vista político, estaria cientificamente justificada a cara de pau.

SRN

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Interesse público e o novo ciclo de ouro do petróleo



Um exemplo objetivo do interesse público está na exceção ao princípio da exclusividade em que o legislador, em virtude dos imprevistos da dinâmica da vida aos quais o poder público tem de atender, garante no ano civil do orçamento em execução a contratação de operações de crédito por antecipação de receita.
Reparem a dependência da qualidade, do espírito público do governante. Trata-se justo da parte que cabe ao indivíduo na história a partir das condições dadas.
Um governador pode, por exemplo, antecipar receita dando como garantia a receita futura do seu estado. Aqui, no Rio, um novo ciclo de ouro do petróleo, já se especula o recurso. Significa antecipar dinheiro vendendo o futuro mediante ágio. Isso tem de ser muito bem pensado, considerar relevância, urgência e, sobretudo, capacidade de fazer a melhor operação para o interesse público a ser traduzido em água, esgoto, políticas públicas de educação, saúde e segurança.
A atuação do Ministério Público do estado será cada vez mais bem-vinda.
SRN 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Política pulverizada é opinião


Política pulverizada é opinião, sem os compromissos da prática vinculada a movimentos e partidos. Não se trata de quem a tem na condição de integrante, que pode, no íntimo, discordar, apresentar o que pensa se houver oportunidade, mas é só isso: a militância o espera.
Sempre releio Graciliano. E o trecho adiante está no início de Memórias do Cárcere:
“Tendo exercido vários ofícios, esqueci todos, e assim posso mover-me sem nenhum constrangimento. Não me agarram métodos, nada me força a exames vagarosos. (...). Posso andar para a direita e para a esquerda como um vagabundo, deter-me em longas paradas, saltar passagens desprovidas de interesse, passear, correr, voltar a lugares conhecidos.”
SRN