sexta-feira, 20 de abril de 2018

Invertendo a seta do tempo

O futuro não é mais o destino, como, aliás, já queriam os pós-modernos. O vídeo da Fapesp, cujo link segue abaixo, evidencia uma possibilidade em poucos minutos agradáveis de assistir. Pois muito bem:
O que caracteriza o tempo? O que o define?
Sabemos o que é o tempo, podemos senti-lo, mas falta a definição que só pode vir da física que, adrede, não se recusa.
Entropia – eis a palavra para o fenômeno verificável empiricamente, pelo nosso sentimento, em substituição às palavras que não temos. Entropia é a desorganização, o enfraquecimento, a perda da capacidade de se manter estável. A exposição dá-se em corpos cujas temperaturas sempre passam do calor para o frio, da integridade para a fragmentação. Trata-se de um fenômeno irreversível: um copo de café perde calor, esfria, não volta a esquentar. Após jogá-lo fora, desequilibramos o copo à mesa, cai e, quebrado, não volta a integrar-se a partir dos seus cacos. Entropia.
O sentido do tempo, sempre para o futuro, é explicado, portanto, pela entropia.
Ocorre que, em sistemas microscópicos, formados pelos chamados “spins’, a organização destes elementos pode alterar a passagem habitual da temperatura em contato do quente para o frio. Uma configuração determinada, nesta mesma escala, pode fazer o “spin” frio transferir sua temperatura ao “spin’ quente, invertendo, assim, a linha do tempo, sem alterar, de resto, as leis da termodinâmica.
Observa-se também, em tais condições de laboratório, os "spins" possuindo o dom da ubiquidade, estando em dois lugares ao mesmo tempo. É um problema, sobretudo, se se conseguir resolver a escala e obtidas as condições necessárias, em que, aos "spins", pudéssemos nós, humanos, substituí-los. Na seta invertida do tempo, viajando, poderíamos, com a nossa massa, ocupar dois lugares ao mesmo tempo no espaço? Aí, então, seria, de fato, uma maravilha. Do ponto-de-vista político, estaria cientificamente justificada a cara de pau.

SRN

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Interesse público e o novo ciclo de ouro do petróleo



Um exemplo objetivo do interesse público está na exceção ao princípio da exclusividade em que o legislador, em virtude dos imprevistos da dinâmica da vida aos quais o poder público tem de atender, garante no ano civil do orçamento em execução a contratação de operações de crédito por antecipação de receita.
Reparem a dependência da qualidade, do espírito público do governante. Trata-se justo da parte que cabe ao indivíduo na história a partir das condições dadas.
Um governador pode, por exemplo, antecipar receita dando como garantia a receita futura do seu estado. Aqui, no Rio, um novo ciclo de ouro do petróleo, já se especula o recurso. Significa antecipar dinheiro vendendo o futuro mediante ágio. Isso tem de ser muito bem pensado, considerar relevância, urgência e, sobretudo, capacidade de fazer a melhor operação para o interesse público a ser traduzido em água, esgoto, políticas públicas de educação, saúde e segurança.
A atuação do Ministério Público do estado será cada vez mais bem-vinda.
SRN 

terça-feira, 17 de abril de 2018

Política pulverizada é opinião


Política pulverizada é opinião, sem os compromissos da prática vinculada a movimentos e partidos. Não se trata de quem a tem na condição de integrante, que pode, no íntimo, discordar, apresentar o que pensa se houver oportunidade, mas é só isso: a militância o espera.
Sempre releio Graciliano. E o trecho adiante está no início de Memórias do Cárcere:
“Tendo exercido vários ofícios, esqueci todos, e assim posso mover-me sem nenhum constrangimento. Não me agarram métodos, nada me força a exames vagarosos. (...). Posso andar para a direita e para a esquerda como um vagabundo, deter-me em longas paradas, saltar passagens desprovidas de interesse, passear, correr, voltar a lugares conhecidos.”
SRN



segunda-feira, 16 de abril de 2018

O engodo da antipolítica


A antipolítica nem sequer é uma estratégia nova. Lembro-me, bem recente, do Enéas. Mas, desnecessário recorrer à caricatura. Faz parte do próprio sistema político, com personalidades que o encarnam reservando à vergonha o farisaísmo da justitificativa da vida que levam.  Ampliando o recorte e abandonando a caricatura, tivemos mesmo em 89, na nossa primeira eleição direta para presidente, após a ditadura, Fernando Collor e Lula decidindo o segundo turno.

O “caçador de marajás” era filho de senador, neto de Ministro do Getúlio, ele próprio ex-prefeito, ex-deputado  e ex-governador da periferia política, por isso, desconhecido e apto ao super-herói midiático que vinha ao encontro do desespero nacional decorrente das expectativas frustradas de uma Nova República articulada para a transição democrática e que acabara em José Sarney e hiperinflação.
Líder sindical das grandes greves do ABC,  símbolo da redenção do povo no poder, fundador do PT, ex-candidato a governador, deputado federal constituinte, Lula ainda não havia dito - talvez por conhecê-lo há pouco por dentro - que o Congresso era uma escória composta de trezentos picaretas, todavia, não pensava muito diferente e estava ali, diante do invejoso Collor  que não tinha um equipamento de som como o dele, para enfrentar o sistema encarnado no engodo disfarçado de “caçador de marajás”.
Como se vê, a antipolítica é um recurso eficaz. O contexto hoje, aqui e no mundo,  é outro, e a rejeição à política como um espaço da ladroagem piorou a um ponto, com estímulos perigosos à disseminação de práticas fascistas, que exige responsabilidade das lideranças e forças políticas na busca permanente da relação sempre difícil, tensa, que não se esgota em palavras de ordem, tampouco no facilitário oportunista da antipolítica, entre liberdade e igualdade.
Bolsonaro é um risco não pelo eleitorado que sempre representa, mas pela esperança que passou a encarnar. Embora nada sendo de antipolítica, deputado que é há quase trinta anos, reflete um problema negligenciado pelas forças progressistas por menor, caudatário, quando não sobrevivência de um anacronismo moralista. Refiro-me à corrupção e à violência.

Não é fácil ter de reconhecer em uma experiência política, ainda que de baixo reformismo, a corrupção como a fonte de uma estratégia em que os meios não mereciam respeito, “instrumentos de classe”, perante fins de hegemonia com o objetivo de “resgatar o pobre”. Gostaria de acreditar tratar-se de uma página virada. Entretanto, a história não é mestra da vida, e, em política, nada é garantido e está dado de uma vez por todas.
Vivemos  uma conjuntura em que a violência, sobretudo na nossa Cidade, e a corrupção, generalizada no sistema político, exigem uma dimensão de coerção e controle legalmente disponível no monopólio da força weberiano que se encontra no fundamento do Estado democrático de direito da nossa Constituição Cidadã de 88.  As forças progressistas têm dificuldade com a coerção, como se o seu uso implicasse descurar as causas sociais. Compreensível. A Revolução permanece um mito. O problema é que, na hipótese remota de Bolsonaro presidente, ele não terá os escrúpulos que outros tiveram, sem base política para governar, de tentar o apoio nas FFAA e na preparação de uma recidiva ditatorial. Um risco, de fato, pois que proporcional à esperança que incorporou e que certamente se frustará quando virem que se trata de mais um engodo da antipolítica.
SRN

sexta-feira, 13 de abril de 2018

O interior da Guanabara

O interior da Guanabara é muito grande. Do campo que se estende da faixa do interior paulista (desculpem-me o pleonasmo) até o sul da fazenda é compreensível a breve superioridade do 'curingão". Trata-se de uma espécie de Goiás estendido com variação de sotaque. Quando estive em Pirinópolis, a imagem estava dada do que quero dizer: uma pick-up Mitsubishi com um par de chifres no capô e dois berrantes como retrovisores, um de cada lado (fora o som estourando Leandro&Leonardo os paralelepípedos da cidadezinha do tomate inscrita na memória do ciclo do ouro goiano).
Como se vê, a explicação da pesquisa do datafolha, publicada pelo Globo, não precisa de muita exegese.
SRN

Um Tio Padre


Eu tive um tio padre, irmão da minha mãe. Estudou no São José, entrava no Seminário (acho que ali no Rio Comprido), saía do Seminário, e, não fosse pela minha Tia, firme e forte aí até hoje, não teria sequer se graduado em filosofia. Mas, o fato é que acabou padre, andou pela Bélgica, França, Barra Mansa, Mogi das Cruzes (no interior paulista, desculpem-me o pleonasmo), morreu, recentemente, em Juiz de Fora, após uma temporada de monge, Irmão Cirino, o codinome que adotara, onde o conheci melhor, ali no São Bento,nos anos 2000. A vista da Baía de Guanabara, daquele penhasco privilegiado do Mosteiro quando eu ia visita-lo aos sábados, era uma maravilha, justificava a visita. A vocação pro sacerdócio foi alguma coisa certamente muito divertida para o meu avô, português, açougueiro, daqui da Tijuca:
“Meu filho, eu já tenho três saias, e você ainda vai botar mais uma.”
Hoje, meu avô, absolvido pelo anacronismo do neto, padeceria na brasa do churrasco da patrulha. Juarez, aliás, foi porque meu avô gostava do tenentismo e, por isso, batizou o filho.
Fiz as ilustrações ( uma Maria negra, que percebeu e gostou) para o livro que esse meu tio resolveu lançar pouco antes de morrer. Trata-se de umas perguntas que queria que nós respondêssemos acerca de Maria. Eu me diverti fazendo os desenhos, mas não respondi a nenhuma das perguntas. É quase pueril, mas, curiosamente, o apelo ao diálogo que meu tio padre faz acho que vale.
SRN