terça-feira, 31 de agosto de 2010

Fechando a Tampa em Itaquera


Por Tadeu dos Santos

É velha a discussão que trata do bairrismo no futebol brasileiro. De nossa parte lançamos venda aos olhos e mordaça à boca num ingente esforço de seguir adiante e ignorar o que de resto, todos sabemos, não tem a menor importância.

O tema, porém, além de recorrente, revestiu-se de uma importância cuja grandiloquência não mais admite o silêncio que despreza.

Isto posto, vejo-me instado a abrir uma brecha na paz do meu tugúrio e aqui do interior do meu aparelho situado num aprazível bairro do subúrbio carioca (bairro que, saliente-se, já deu abrigo a Prestes, Lima Barreto, João Nogueira e Millôr Fernandes) e de antemão sabendo do risco de ainda que acompanhado, me sentir tristemente solitário, falarei de paulistas. Serei rápido e, na medida do impossível, indolor. Prometo.

Antecipadamente, salientamos que nada do que aqui se comentará tem por finalidade isentar os times do Rio de Janeiro da balbúrdia que reiteradamente se faz presente no nosso “jeitinho de administrar”. O que se vê por aqui não é digno de qualquer encômio. Ao contrário, é algo a se lamentar.

Mas se paraíso tem endereço, não há qualquer dúvida que ele fica em São Paulo. É por lá que encontramos os melhores e mais organizados times do país. A frase é entoada repetitivamente e, evidentemente, destina-se ao convencimento dos incautos.

Mas tudo isso era ainda insuficiente aos briosos paulistas e, ato contínuo, andaram a dizer que a torcida do Flamengo já não era mais a maior do Brasil.

Claro está que seja lá qual for o sentido que se pretenda atribuir ao adjetivo maior ele está umbilicalmente ligado ao Clube de Regatas do Flamengo. Sim, somos grandes e mais. Somos também aguerridos, somos predestinados, somos uma nação.

Acaso reste alguma dúvida acerca da inteira veracidade de tudo o que efetivamente somos, fica a sugestão: vá ao Maracanã (ele é nosso, saibam todos) e veja a única torcida brasileira digna de tombamento. Um alerta, apenas: cuidado, somos dotados do amor que contagia.

Mas não é só. Estão a lançar a pedra fundamental de um estádio que maravilhará o mundo. Deve ficar ali nas adjacências de algum desses muito encontradiços ITAS de São Paulo. Quiçá seja Itaquera, vai saber.

Enfronhados no tal magnânimo projeto estão o Ronaldo. Lembram? Aquele a que homenageamos a farta quando de sua última passagem pelo Maracanã (pra variar, ganhamos). Ele agora é garoto-propaganda. Atrai investimentos.

O outro atende pela alcunha de Lula e é pródigo nesse pouco salutar hábito tendente a misturar o público com o privado. A aparente parceria Planalto x Corinthians é apenas um episódio desse dramalhão que resulta no desassossego do espírito e esvaziamento dos bolsos.

Ao fim e ao cabo o que conta mesmo é o Rio de Janeiro.

O Maracanã não é estádio e isso é fato. Na realidade, ele é palco, é panteão.

Prenhe de histórias e charme é o cartão-postal do futebol brasileiro e não há nada que se revista de força suficiente a afastar essa gritante verdade.

Somos a principal sede da Copa do Mundo e aqui serão realizadas as Olimpíadas de 2016; queiram ou não os organizadíssimos capiaus de Itaquera.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Valeu, Renato, mas val baiano, sem chance

Renato é um grande camarada da UERJ, com idade pra ser irmão de minha filha. Tem uma paciência atípica com velhos, dá-lhes a atenção que necessitam pras suas histórias das três últimas décadas do século XX, sobretudo aquele time do Flamengo, campeão de tudo, que repito quase como um crente do bispo Macedo:

Raul, leandro, Marinho, Mozer e junior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.

Conheceu o 28, meu camarada de rua, contemporâneo das peladas da Senador e do salão (hoje futsal) do Maxwell, daquele time de 75, de onde saiu o "Gigante", apelido do nosso saudoso Zé Carlos, campeão brasileiro em 87.

Outra coisa: o time ontem teve posse de bola, chegou a envolver os bugres, completamente diferente do estilo em que jogava com o zagueiro (foi mal, meu irmão, mas é a verdade). Agora, contra val baiano não há nada que passe. Na primeira o cara estava descendo, já meio desequilibrado, mas nada que o impedisse de apenas deixar a bola bater-lhe à cabeça, pois o gol escancarado era saco. Na outra, nenhuma desculpa. Petkovic deixou-lhe de cara no gol, na entrada da área, e o cara tropeçou na bola, isolando-a. Depois, dizem que é implicãncia com capiau.


28 é tranquilo. Não esquenta com porra nenhuma. Valeu, Renato. Vou encaminhar as perguntas que me manda pro cara e convidá-lo pro botequim. Espero encontrá-lo de bom humor. O cara tá ranzinza.

SRN

Boteco. Templo da tradição oral (sem duplo sentido), de passar histórias e conhecimentos. 28 já está lá me aguardando.

Sebastião: Cara te vi outro dia ali na Negrão de Lima. Pensei que tu ia sentar a mão no fiscal. Ia parar e falar contigo. Mas eu ia acabar batendo no fiscal e saí fora. Me responde uma coisa, na juventude tu encarava as passeatas, brigava com os cana ou só pensava mesmo?

Sebastião: Isso me leva a segunda pergunta, por que agora, depois de jovem, resolveu deixar a cadeira balançando sozinha e encarar uma UERJ da vida? Ali tu só vê o que já vivenciou pra que ver tudo de novo? Sei pelo Renato que além de ver tu quase viveu de novo. Tentaram te amarrar num aparelho, mas pelo visto cansou da brincadeira, das informações estratégicas e sigilosas e mandou tudo pro caralho. Por que isso?

Sebastião: Sabe, eu sou da geração da nostalgia. Saudade do que não existiu, pelo menos não para mim. Uma utopia, uma ideologia. Mas desencanei. E quem não desencanou em vez de virar um novo romântico virou um emo. Já me senti neófito e quando percebi que tava virando um niilista, larguei mão disso e vi que acreditar piamente em alguma coisa é necessário. Só que isso não livra ninguém das contradições? E quer saber, acho essa ambigüidade maior barato. Mas como não sou de ferro, tenho meus desvios burgueses também. Até o Máximo tem a propriedade privada dele e que não é qualquer uma é uma Nação Maior. E você? Tem suas idiosincrasias também?


Renato Lopes


domingo, 29 de agosto de 2010

"Não podemos mudar a cara do clube". É o que interessa.

Silas, já como técnico do Flamengo (www.flamengo.com.br):

"Estilo de jogo - Não podemos mudar a cara do clube. Como no Grêmio, quando cheguei, sempre se pediu um Grêmio guerrerio. Isso são das tradições do clube. No Flamengo, tem que se jogar para frente, atacar, buscar o gol... Era a forma de jogar do Zico aqui, era a minha na época de jogador e vou tentar implementar isso no dia a dia. Sem deixar de me preocupar com a parte defensiva, é claro, que é importantíssima no futebol atual."

SRN

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Dialeto Paraguaio, sem chance

Acabo de receber um e-mail com um retardado ágrafo, só podia ser mesmo candidato na fronteira do interior do Brasil, sendo sugerido pra técnico do Flamengo.

Não vou publicar, porque esse blog respeita todas as religiões, sobretudo a afro-brasileira, a despeito da qual determinado terreiro, de plágio, lar do prado, ainda dê guarida pra grunhidos roufenhos do caipira de aeroporto de fim de semana.

Esse o problema de quando caipira resolve fazer humor. Só ele acha graça, além dos netos do vale que o acompanham nos dois chop e um pastéis, ou ao contrário, dois pastel e um chops, tanto faz, porque não é depois de velho que eu vou aprender dialeto que ficou resto de guarani paraguaio.

SRN



quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Bola. A Prosa. Arte.


Por Tadeu dos Santos

A velha guarda da Portela já abrigou Manacea. É dele a famosa “Quantas Lágrimas”, gravada por Cristina Buarque de Hollanda. E ele dizia: “Ah! Quantas lágrimas eu tenho derramado, só em saber que não posso mais reviver o meu passado”. Por ali também já circulou Alberto Nonato. Ainda andam por lá Casquinha, o famoso autor da 2ª parte da lindíssima “Recado”, parceria com Paulinho da Viola e Jair da Portela, dentre outros.

Mas é, sobretudo lá que ainda encontramos Monarco. Ele é parte integrante do acervo patrimonial de nossa cidade. Vejo o brilho nos seus olhos ao contemplar sua música sendo cantada por Zeca Pagodinho e também sou tragado pela emoção.

Lembro de um triste carnaval em que a Velha Guarda não desfilou. Dia triste pro samba. Triste registro de um carnaval norteado por quesitos que valem nota. Também aqui a beleza foi sacrificada no altar da eficiência. Também aqui a modernidade deixou de enxergar o essencial, o que, ao fim e ao cabo, efetivamente contava. Ficou a inelutável conclusão de que em meio à tanta grana e atenção aos quesitos, a sensibilidade foi relegada a uma diminuta importância.

Monarco e toda a Velha Guarda da Portela são destinatários do bem querer do carioca. Tudo o que nos falta é exteriorizar esse apreço. Entoar-lhes loas e render-lhes encômios. Sim, é disso que precisamos.

A exceção ficou por conta de Marisa Monte em seu “Tudo Azul”. Belíssimo CD em que se homenageou a velha guarda da azul e branco cantando os sucessos de seus integrantes. Uma maravilha só.

Vi Miltinho cantando com Ed Motta. A música era “Seu Nome é Ninguém”. Não há qualquer exagero em se afirmar que Miltinho poderia ser conhecido pelo epíteto de “O irrepetível”. De fato, a cada interpretação a música se faz diferente, nova e melhor. É um dos últimos integrantes de uma safra que enlouquece os sentidos.

E Cássia Eller ladeada por Luiz Melodia cantava “Juventude Transviada”. Não temos, decerto, a melhor música do mundo (como sempre afirmam nossos nacionalistas de plantão), mas podemos nos orgulhar da tríade Elis, Cássia Eller e Marisa Monte.

Luiz Melodia também fez “Estácio Holly Estácio”, “Pérola Negra” e “Fadas”. E isso, definitivamente, não é pouco. Não mesmo.

Já ao fim ouvi o Grupo Fundo de Quintal cantando “Trem das Onze” do fenomenal Adoniran Barbosa. Lá, claro, também estavam os Demônios da Garoa.

Adoniran soa como aqueles obras que não admitem definição. Quanta genialidade havia naquele linguajar tão simples. Adoro “Tábua de Tiro ao Álvaro” na voz de Elis. Também é definitiva a interpretação de Clara Nunes para “Iracema”. E “Bom dia Tristeza” com Roberto Ribeiro é belíssima.

Adoniran disse: “A tristeza é que nem rato comendo queijo parmesão... e como dói a bandida”. Lindo!

Não lancei mão de Nélson Cavaquinho. Seria demais pra um só dia.

“Folhas Secas”, “Rei Vagabundo”, “O Bem e o Mal”, “Pode Sorrir”, “Rugas”, “Juízo Final”, “A Flor e o Espinho”, “Quando eu me Chamar Saudade”, “Pranto de Poeta”, “Rei Vadio”, “Vou Partir”, “Minha Festa” “Duas Horas da Manhã”, “Degraus da Vida”, ”Palhaço”, e “Tenha Paciência”, dentre tantas outras são de Nélson, o boêmio, o anjo da noite, o gênio absoluto.

E pra que não fiquem por aí a afirmar que somos movidos por inafastável e empedernido saudosismo fica a indicação: ouçam o “Música de Brinquedo do Pato Fu”. O disco foi todo feito com brinquedos infantis (flauta, guitarra, violão, bateria). Os corais ficam por conta da filha de Fernanda Takai / John Ulhoa e outras crianças.

Dizem que no interior de uma nave foi colocado um CD e que nele estava um samba. Fico daqui a imaginar um ET de posse do tal CD. Em seu ouvido ecoava um “Coisinha tão bonitinha do pai... “. O longo dedo lança-se a cata do botão STOP. O olhar se dirige pra miríade de estrelas posta à sua frente e sem mover a boca que de resto não tinha, ouve-se: “ Eta nepotismo danado!!! Mas cadê o Nélson?”

Marx seria Flamengo


Por 28

Fecharam o quiosque na Negrão de Lima, a rua do rio, esquina com a Gonzaga. "Problema com a documentação", me responde o fiscal do "choque de ordem", desse mauriçola com cara do resto carioca.

Até ali tava tranquilo, os pés não queimavam no chinelo rubro-negro que a Ângela me deu. O problema é a aporrinhola que já virou uma praga, em banco, em supermercado, no ingresso do Maracanã. A fila trava e as candinhas destravam a língua. Também caminho com esses pés de pilão rumo à terceira idade e não falo dos coroas ranzinzas. Salvo conduto é pra isso. Falo é de marmanjo zé roela que olha pra tua cara na fila "até 15 volumes", o carrinho inflamado de lata de cerveja e carvão de churrasco tentando falar mal da moça do caixa.

"É foda, não querem nada."

"Meu irmão, tu queria tua filha ali, aturando um camarada com a tua disposição?"

Valeu, Máximo. Estava na fila e me mandou sentar no corredor enquanto chegava a vez. Na saída, me emprestou um livro que o parceiro daqui do blog, Tadeu dos Santos, lhe mandou: "O Marxismo de Marx", de Raymond Aron. É o seguinte: há nos franceses uma precisão sempre muito útil. Evitam o desperdício com o conhecimento sobre o suporte das palavras estritamente necessárias. Acaso Zidane não foi uma tentativa de síntese do Zico?

Outro dia lendo Hobsbawm, que é inglês, na diferença que estabelece entre ficção e história, aprendi que é comum a construção identitária como grandes narrativas de estrutura literária: exclusão, provação, redenção. O herói jogado pela linha de fundo, a provação no esforço de superar os obstáculos, derrotar os inimigos, ao fim do qual, redimido, o herói é glorificado no panteão de honra da unidade nacional. Um troço que me lembrou o nosso Monstro Sagrado, alguns anos, na volta contra a bambilândia. Fevereiro de 86, mais ou menos, o lado direito, naquela aporrinhola de comadre de "abenção João de Deus", resolve jogar os estojos de maquiagem em peso pro campo: "bichado! Bichado!"

O Monstro só fez o que precisava. Deixou a bambilândia de quatro, ainda com um golaço de falta, daqueles de manual, escrevendo a história mítica que caracteriza a tradição responsável pelo projeto da identidade da Nação Rubro-Negra.

Agora lendo o livro do francês, Aron fala da noção de crítica de Marx. Seu caráter "imanentista", aproveitado de Hegel, pelo qual "a razão, segundo Marx, está presente, mas nem sempre sob a forma racional", levando a analisar a realidade tal como esta se apresenta, para saber o que ela é, uma espécie de "razão semiconsciente que a crítica descobre na realidade". A razão é o que sociedade deve ser, na investigação das aparências.

Marx, meus camaradas, não tenho dúvida, seria Rubro-Negro. Isso aí que o Aron explica é mais ou menos como se dissesse que o Flamengo é a melhor forma de ser carioca. Eis o Rio. Por falar nisso, Diogo e Deivid, sejam bem vindos.

Seguinte: a vista tá ficando turva e não dá pra ficar aqui muito tempo, sem esticar as pernas.

Mas, esse papo aí do Marx Rubro-Negro vou retomar.

Valeu, Máximo e SRN.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

E o Andrade?

Por Tadeu dos Santos

Ouvimos desde sempre que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Isso não é verdade. Há relatos de pessoas que foram atingidas por raios mais do que uma vez. E sobreviveram.

A ressalva é feita para o fim de salientar que, em absoluto, não esperamos por Raul, Marinho, Mozer, Leandro e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico.


Merecemos, por outro lado, algo melhor do que Val Baiano, Vinícius Pacheco e Borja. Cito os três apenas para registrar o que nos soa de todo insuportável. Mas não é só.


A defesa não é confiável. Jorge BenJor diz que zagueiro tem de ser malandro. Eu acrescentaria que ainda que não mantenha com a bola uma relação baseada na mais franca intimidade, há de dirigir à mesma ao menos um cortês bom dia. Relações amistosas, eu diria. Não é isso, à exceção de Angelim, o que vemos em nossos zagueiros. Juan quem sabe por gozar de uma aparente estabilidade, transformou-se num lateral assaz burocrático e previsível.

Ansiosamente esperamos que Renato e Correa recuperem suas melhores formas físicas. Há uma evidente sobrecarga a pesar sobre os ombros de Willians que, invariavelmente, resulta num excesso de faltas.


Em meio a todo esse contexto resulta algo inútil a liberdade desfrutada por Petkovic.

E, claro, a pergunta que insiste em não se calar: quem afinal é o padrinho do técnico Rogério Lourenço. Por bem menos do que isso o Andrade caiu e a seu favor sequer considerou-se um importante título que havia pouco conquistara.






Zagueiro: sem chance

terça-feira, 17 de agosto de 2010

O Encontro do time do Madureira com Che Guevara

www.futepoca.com.br


Aproveitando uma dica do leitor Rafael Fortes, em comentário no magistral post do companheiro Glauco sobre o encontro de Che Guevara e Chico Mendes, fui dar uma olhada na tal Recorde: Revista de História do Esporte. E lá está, como vocês podem ver acima, a foto de Che Guevara, na época Ministro da Indústria de Cuba, com o time carioca Madureira, em 18 de maio de 1963, data em que os brasileiros derrotaram uma seleção de Havana, na capital, pela segunda vez durante excursão pela terra de Fidel Castro. Os editores da revista comentam que a escolha dessa imagem para capa da nova edição ocorreu depois que "o colega Álvaro do Cabo nos trouxe essa foto, um postal que comprara em Cuba, e imediatamente passamos a buscar informações sobre esse belo instantâneo".

A resposta veio em uma matéria do jornal O Globo de 25 de setembro de 2005, assinada por Fábio Juppa e João Máximo. Diz o texto: "A passagem do Madureira de Farah, Peixe-Galo e Batata pela ilha fez parte de uma excursão pelas Américas, dois anos depois de o clube ter-se tornado o primeiro do Brasil a dar uma volta ao mundo, e Che Guevara ter sido condecorado em Brasília pelo então presidente Jânio Quadros com a Ordem do Cruzeiro do Sul.(...) Os amistosos, negociados por José da Gama Correia da Silva, o Zé da Gama, português que presidiu o Madureira no biênio 1959/60 e atuava como empresário de futebol, começaram na Colômbia, seguiram-se na Costa Rica, passando por El Salvador e México".

Em maio de 1963, o Madureira fez cinco jogos em Cuba, goleando em quase todos: 5 a 2 contra o Industriales (campeão local), 6 a 1 no Municipalidad de Morrón (da Província de Camagüey), 11 a 1 num combinado universitário e 1 a 0 e 3 a 2 em duas partidas contra uma seleção de Havana. Ao segundo desses últimos dois jogos, Che compareceu. "-Ele vestia aquele uniforme verde-oliva do Exército. Depois da partida, entrou em campo e saudou um por um", recordou Farah, apoiador do Madureira em 1963, ao jornal O Globo. "-O contato com Che Guevara foi extremamente amigável. Ele foi carinhoso. Visitou-nos no hotel e, no jogo a que assistiu, distribuiu flâmulas. Parecia um homem íntegro", observou o ex-jogador. Che gostava de futebol e o Brasil havia acabado de conquistar o bicampeonato mundial no Chile, em 1962. "-Eles queriam tudo o que tínhamos. Teve jogador vendendo roupa e deixando o país com mais dinheiro do que levou", recordou Farah.

G4

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Terreiro Grande

Roberto Didio - Terreiro Grande / www.cecac.org.br

Terreiro Grande no Rio de Janeiro
Sambistas de São Paulo, junto com Cristina Buarque,
lançam CD em homenagem a Candeia

Dia 21/8 – sábado – a partir das 15h na Roda de Samba da Ouvidor, esquina da Rua do Mercado com Rua do Ouvidor, Centro - Rio de Janeiro

Dia 22/8 – domingo – a partir das 14:30h no Paquetá Iate Clube, na Ilha de Paquetá - Ingressos: 10,00 (não-associado) - 20,00 a mesa


Para quem não sabe, o Terreiro Grande deriva de uma agremiação chamada Grêmio Recreativo de Tradição e Pesquisa Morro das Pedras que se formou em meados da década de 1990 e foi finalmente fundado em abril de 2001 numa comunidade de São Matheus, o bairro Rodolfo Pirani [São Paulo-SP], encerrando suas atividades em dezembro de 2006. Lá fazíamos, além das rodas de samba com homenagem a sambistas completamente esquecidos, algumas atividades de cunho social como aulas de reforço escolar, aulas de música e capoeira para mais de 70 crianças do bairro e adjacências.

Terreiro Grande no Bar do Alemão (O Patriota) - São Paulo

Sempre defendemos a ideia de que o samba, além de musicalizar, pode também ser uma via de contestação social, uma forma de coletivizar, de agregar pessoas em prol de uma causa. O samba é a música do povo e, como tal, tem esse poder legitimado.

Muitos sambistas no decorrer de suas vidas dedicaram-se a essa ideia. Candeia, por exemplo, reunia na sede da GRAN Quilombo [Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo], debates sobre preconceito racial, sobre a situação do operário, sobre a condição do pobre nas favelas e compôs inúmeros sambas com esse mote. Paulo da Portela, como eu disse no texto "O samba é que é revolução, é preciso que se convençam" (leia aqui), fez um samba dedicado ao revolucionário Luis Carlos Prestes, na década de 40. Cartola compôs o "Samba do Operário". Jorge Zagaia fez o "Samba do Trabalhador" e mais uma porção de exemplos que eu poderia citar aqui. O samba sempre teve essa veia, já que ele já foi a música principal do povo humilde das favelas e subúrbios. Hoje, isso está um pouco de lado e como diz o Paulo César Pinheiro, "o samba está muito alegrinho pro meu gosto". Concordo. Mas isso é um outro assunto. Quero focar num outro aspecto.

Terreiro Grande no Bar do Alemão (O Patriota) - São Paulo

Lembro-me que em várias ocasiões, tínhamos, entre uma cerveja e outra, entre um samba e outro, conversas sobre o nosso papel quanto sambista nessa história toda. Sempre encabeçadas pelo nosso irmão Roberto Didio, as discussões varavam tardes em diversos temas que iam desde o samba no início do século à sua influência política nos dias atuais e cada um ali, absorveu aquilo de uma forma particular. Muitos foram atrás de livros pra se aprofundar mais, outros nem tanto. Mas todos, sem exceções, sabiam qual o sentido de se reunir em volta de uma mesa para cantar samba, que pode - nem sempre precisa - ir além de simples reunião de músicos. Lembro que a primeira vez que ouvi falar em Marighella, foi lá no Morro. Inclusive, tínhamos numa das camisetas do grêmio, um poema dele, nas costas. E por tudo isso o Terreiro Grande pôde, embasado nas suas convicções, sempre optar os caminhos que quis e que quer seguir. Temos um compromisso com essa história que ajudou a formar nosso pessoal. Cheguei onde eu queria.

Sendo fiel ao que sempre acreditamos e pregamos, eu posso utilizar desse espaço para propagar, não apenas tudo que se relacione ao universo do samba, como tudo o que está intrinsecamente ligado a nós, como cidadãos do mundo. E, se querem saber, não consigo separar as coisas. O sambista e o cidadão são um só. Por isso a bandeira do MST está estampada em nosso espaço virtual. Compartilhamos daquela ideia e nos solidarizamos com a causa.

Por tanto, caros amigos, não fiquem surpresos, nem estranhem quando o assunto aqui não for o samba. E eu lhes faço a seguinte pergunta: Ao invés indagar o porquê de um bando de malucos misturar samba e política, perguntem-se: por que não? A proposta está feita.

Esse espaço é apartidário, mas é VERMELHO por convicção. Nunca podemos esquecer o que disse o poetinha, na contra capa do nosso primeiro disco:

Em tempos de superexposição, onde a padronização cultural é lei, comemoramos a delicadeza transgressora deste trabalho.

Literalmente, não pagamos para ver, pagamos para ouvir! E o fizemos prazerosamente. Cuidando da memória, sempre, sem descuidar da revolução.

Nos solos e terças, num gole ou embargo de voz, o primoroso cantar da Cristina (Chefia!) reuniu todos esses fantásticos compositores num chão de terra boa – de ares não condicionados – o terreiro! Terreiro Grande!

Ainda: valiosíssimo encontro de amigos! Na cara da desumanização, no vagar, ergue a escassa lamparina da utopia. Representando, sobretudo, nossa gratidão ao estado de graça maior que a música alcança: o samba.


sábado, 14 de agosto de 2010

Guarânia Paraguaia na Área de Noel


Zagueiro, meu irmão, aqui não se trata de corneta, mas de quem não atura ver o Manto Sagrado com as cores do resto carioca, preto e branco, grená e verde, esses troços. Esses bonsucessos é que têm de jogar como você gosta.

O Flamengo nunca precisou de estádio porque já tem o Maracanã, que dá tranquilo. E nele sempre impusemos o jogo, o resto na roda, a "teia de aranha" à espreita, ora Andrade, Adílio, Mozer e Marinho, com Júnior encostando, ora o Tita (que só aturo, esquecendo que queria o lugar do Zico, porque foi campeão naquele time que ensinou o futebol a ser carioca), o Lico, Andrade e aí o bote, a bola limpa pra Zico meter o Nunes a quem o Galo inventou pra artilharia.

Meu irmão, você também chegou a ver, e bem de perto, nas categorias de base, o que lhe conto segurando as palavras que bem mereciam uma corneta e ver se detona logo essa covardia de garantir uns trocados à custa da Grandeza Rubro-Negra.

Quer emprego, meu irmão, pega o metrô, passa aqui na Carlos Vasconcelos e se cadastra na agência de emprego da secretaria do trabalho.

O Manto retrancado em pleno Maracanã, o Lomba fazendo cera pra garantir o 1x0, substituição na prorrogação como time pequeno, de fato, parecia, pois quem entrava era Galhardo e quem saía Val Baiano.

(Leandro Amaral, sem ritmo, valeu pelo sangue)

Joga muito Willians. O Legado do Manto lhe cai tranquilamente.

Vai nessa, meu irmão.

SRN

Faltam Jesuítas às Várzeas do Tietê


Por Tadeu dos Santos

Vejo que bradam por aí as mais recentes pesquisas. Elas dão conta de que periclita nossa supremacia numérica e que muito em breve já não mais seremos a maior torcida do Brasil.

Não nos conhecem. Não sabem nada de nós.

Os números que ostentamos são dados estatísticos que revelam parte de nossa grandeza. Mas não é aí que reside a nossa essência.

Inventamos um ponto de fusão em que torcida e time unem-se e formam um novo ser. Uníssono, compacto, forte, grandioso, belo, impoluto, dialético e vencedor. Somos tudo e muito mais. Somos poderosos.

O poder aqui se origina no seio da massa. Nos tempos da antiga geral era ali, junto aos mais humildes que se operava sua gênese. Passava a seguir pelos camarotes e por fim ia ter à arquibancada. Dali o poder, nascido do amor e do orgulho dos membros da Nação, retorna ao gramado e toca nossos deuses.

Saibam todos que era nosso o sopro que no derradeiro momento conferiu a mais inteira perfeição ao petardo de Petkovick naquela célebre decisão de 2001. Éramos o gesto incontido de Rondinelli a implorar pela bola em 1978. Éramos ausência de lógica no chute de Nunes na decisão de 1980 e também éramos nós a dar a força que faltava para que Valido subisse e de cabeça fizesse o antológico gol em 1944, nosso primeiro tricampeonato.

Mas tudo isso é apenas o que nos é dado ser. Queríamos mais.

Queríamos ser grama e ter a distância e o ângulo ideais para ver Geraldo andar por sobre a bola. Queríamos ser trave e dali encher os olhos com a elegância de Domingos. Queríamos ser barreira e, tão próximo quanto possível, assistir as cobranças de Zico e Dr. Rubens. Vês não é muito o que queremos. Mas se possível também queríamos ser bola e ir ter aos pés de Leandro.

E é diferente esse nosso amor. Não sofre os desgastes provocados pelo tempo. Ao contrário, fortalece-nos o passar dos anos. É amor antigo e dá-se à conta de registro apenas o marco inicial.

Dizem que ao tempo da inauguração do maracanã todos os videntes de plantão, auspiciaram que não se construía ali um estádio, mas um templo. Disseram também que por ali se operaria uma comunhão nunca antes dada aos olhos. Resultaria de um amor profundo, entranhado.

Vá ao templo. Assista ao rito. Sinta a comunhão e confirme a magia.

Que torcida é essa? Que time é esse?

E que jamais voltemos às vis questões quantitativas. Isso é papo de louco.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Terra Ampla





O sobe e desce do nordeste futebolístico


Por Benê Lima, radialista e diretor superintende da Liga Cearense de Futebol Feminino (LCFF) e qualificado e habilitado para representar o estado do Ceará na 3ª Conferência Nacional do Esporte.

O futebol brasileiro no seu todo está enfermo, e o futebol nordestino como parte dele sofre os efeitos da degenerescência de uma gestão desportiva que fincou bases na irrealidade

Ao lançarmos uma visão geral sobre o momento do futebol brasileiro, pela ótica dos clubes – mesmo aqueles que integram somente a divisão de elite nacional – inevitavelmente constatamos um quadro que, se não chega a ser sombrio, assume contornos de uma crise instalada.

Mais que a sintomatologia, podemos identificar, pelos efeitos com que nos deparamos, a falta de saúde financeira da grande maioria dos clubes brasileiros. E, mesmo os que gozam boa saúde têm necessitado da receita extraordinária oriunda da negociação de seus melhores jogadores. Pois, de ordinário, estariam – salvo uma ou outra exceção – no vermelho.

Transpondo a questão para o norte e o nordeste brasileiros, que nem de longe está imune à pandemia inflacionária que tomou conta do futebol nacional, assistimos a iniciativas pontuais como as que caracterizaram as administrações de clubes (ou seria melhor dizer times?) como Bahia, Santa Cruz, Sport e Fortaleza, que muito bem representam, em diferentes níveis, ações no mínimo perdulárias de seus dirigentes.

A realidade futebolística do alto do mapa, em que predomina o ‘colosso verde’ da região amazônica e adjacências, chega a ser um pouco pior que a da região que inclui a zona da mata, o semi-árido, o meio-norte e o agreste nordestinos. O estado de pobreza dos times da região contrasta diametralmente com a riqueza dos recursos naturais ali presentes. Os exemplos mais eloqüentes da decadência do futebol do norte do país são Paysandu/PA e São Raimundo/AM, rebaixados dentro de campo.

Apesar dos pesares, uma elementar conta de resultados demonstra o progressivo fortalecimento da região nordestina no cenário futebolístico brasileiro. Há quatro anos só tínhamos um clube do nordeste na Primeira Divisão: o Fortaleza/CE. Já em 2006 passamos a ter dois representantes nordestinos: o Fortaleza/CE, que permaneceu airosamente, além do Santa Cruz/PE, que conquistou também garbosamente seu direito ao retorno à 1ª Divisão. No que pese o rebaixamento dos dois clubes nordestinos, outros três conseguiram o acesso à Série A. São eles: Sport/PE, Náutico/PE e América/RN. Portanto, a região passou a ter maior representatividade, sobretudo o estado de Pernambuco, através de dois representantes da cidade de Recife. Mas, infelizmente, essa situação durou pouco, com os três sendo rebaixados. Não fora pelo Vitória/BA e agora pelo Ceará, o nordeste estaria à margem do grupo de elite do Brasileirão.

Mas, vencido o desafio do acesso, o embate seguinte gira em torno da manutenção dos representantes nordestinos na divisão “top” do Brasileirão, o que constitui tarefa das mais árduas. Principalmente se levarmos em conta as desigualdades a que estão submetidos, do ponto de vista da distribuição dos recursos originários do contrato da televisão. Deste ponto de vista, o Ceará certamente é quem mais tem sentido as agruras da luta para manter-se onde está.

Enquanto isso há outros segmentos do nordeste que vivem uma realidade bem diferente de outros estados, já que precisaram desafiar a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ao descumprirem o Calendário Anual que vem sendo proposto pela entidade, sem o quê não sobreviveriam. Os campeonatos estaduais do Maranhão e do Piauí têm maior duração, além de promoverem o choque entre os calendários da CBF e dos estados, quando em concomitância acontecem duas competições: Campeonatos Estaduais e Campeonato Brasileiro da Série-C.

E assim, neste constante processo de adaptação, vão vivendo os clubes do norte e nordeste do Brasil, todos lutando bravamente por continuarem a existir.





quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Água com Gás

Os professores fazem graça - "ainda não desistiram?" - e um novo semestre começa. A vida que segue, entretanto, é muito simples. E o camarada olha pro lado e chega à conclusão de que o curso de história deveria ser, de fato, exclusivo à Unati. Coisa da terceira idade, os livros ao lado do sofá, o Flamengo na televisão, a água mineral com gás, o cachorrro aos pés e o camarada seco pra ver a família, os problemas da família, pelas costas, lembrando-se do que lera há muito, quando ainda era desenhista profissional, a respeito do que dissera o pai de Picasso:


"Gosto muito dos amigos, mas gosto mais ainda quando vão embora."


Além do que é pior: alguns anos de leituras cerradas, não diletantes, para ter de se transformar em professor. Aqui a razão do argumento que apresento. História é pro camarada que sempre gostou de ler, as chuteiras prontas para o prego, mas, que, por vaidade, de que, de resto, por mais humor que a passagem do tempo forneça, ainda está lá, sob controle, mas a reclamar satisfação, ainda que mínima. Então, o camarada faz vestibular pra UERJ, pra alegria da filha que, embora queira ser engenheira de petróleo, anuncia com orgulho que tem um pai historiador. Esquece-se, porém, de que o diabetes mal cuidado impede não apenas aquela pelada das noites de terça, mas também põe em risco o futuro orgulho filial.


Mas, nem o Flamengo, que já lhe deu Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico - ou qualquer outra coisa escrita por Drummond, permanece incólume diante de um Val Baiano e um Borja, que nem sequer sabe correr.


E o camarada, que foi fazer história porque queria orientar melhor as leituras, satisfazer a vaidade e, sem chance de ser professor - coisa que nunca sequer ocorreu-lhe - ainda viu com esperança diminuir a própria ignorância, saber que o futebol também era objeto de estudo.

Mas, esta postagem não se resumiria a estes parágrafos, que são uma introdução.

Alzheimer.

SRN

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Futebol: Legítimo Objeto Acadêmico


Professor do Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o sociólogo Mauricio Murad é coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol, fundado em maio de l990. Nestes vinte anos de existência, Murad e seus colegas desenvolveram algumas linhas de pesquisa, bem como procuraram organizar um importante acervo documental sobre a temática do futebol. Além disso, o Núcleo editou cinco números da revista Pesquisa de Campo, que tinha como foco publicar artigos e outras produções sobre futebol. Nesta entrevista, o professor Mauricio Murad aborda o processo de criação do Núcleo e da revista, bem como alguns dos temas que vem pesquisando nas duas últimas décadas.

Segunda parte

Entre os diversos temas nos quais você atua em relação ao futebol, o mais recente tem sido em relação com a questão da violência. Em seu doutorado, realizado em Portugal, como você analisa a violência dos torcedores europeus?

Sim. Tentei fazer um estudo comparativo entre os diversos quadros sociais de práticas de violências no continente europeu e no Brasil. Viajei bastante, levantei dados, pesquisei, morei nos lugares, já que a “observação participante” é sempre um instrumento muito rico e denso para a pesquisa social. As distintas práticas de violência ocorrem em diferentes culturas, sociedade e segmentos sociais. Os torcedores não são iguais, como não são iguais a institucionalização das torcidas e a sua intervenção nos cenários dos jogos. As ações dos órgãos de segurança pública também têm, claro, as suas especificidades, suas legislações e limites entre a prevenção e a repressão. Tudo isso integrado faz com que as investigações sociológicas acerca da violência no futebol (no e não do futebol, como muitas vezes a mídia “espetacularizada” quer fazer crer), seja uma via de acesso a questões estruturais e históricas das sociedades observadas. As múltiplas culturas locais são do mesmo modo contextos de relações importantes para o pesquisador da violência no futebol.

A infra-estrutura do estádio e, conseqüentemente, uma melhor organização logística dos times europeus, desde a venda de ingresso até o acesso da torcida aos estádios faz com que a violência nesses lugares se manifeste de outras formas?

Sim. As condições do espetáculo, o direito do consumidor, a organização do acesso aos estádios e das instalações dentro dos estádios, bem como a venda de ingressos, o combate aos cambistas e a redução da impunidade aos transgressores fazem uma enorme diferença. Historicamente, nenhuma sociedade conseguiu eliminar 100% o crime, a transgressão e o descumprimento da lei. A questão civilizatória é como controlar e limitar a níveis socialmente aceitáveis, essas práticas transgressoras, para que fiquem sob o controle da lei e das instituições sociais e não a situação inversa como vemos hoje no Brasil, em que o crime, a droga, a corrupção dominam as instituições centrais da república, desde as suas altas esferas.

Está enraizado no senso comum, até para muitos jornalistas, que a causa da violência é gerada pelas torcidas organizadas. Essa visão é correta?

Não. As organizadas são minorias no universo dos torcedores e os vândalos são minorias dentro das organizadas, alguma coisa entre 5 e 7%. São segmentos perigosos, treinados militarmente, com algumas conexões com o tráfico de drogas e de armas, portanto são preocupantes e têm que ser contidos, pela ação orquestrada da polícia e dos órgãos do poder judiciário, mas são minoritários e não definem as torcidas organizadas, enquanto coletividade. As organizadas fazem parte do espetáculo. São coreográficas, musicais, carnavalizadas. Não podem e não devem ser proibidas, a não ser determinados grupos que se excedem e ultrapassam os limites da lei e da ordem pública. Aí sim, é preciso que a mão dura da lei aja de forma contundente, sobre esses grupos de arruaceiros, mas isto não é privativo do futebol, nem de suas torcidas organizadas.

Casos recentes no futebol brasileiro colocaram a questão da violência novamente em foco. Podemos citar os seguintes acontecimentos: foi a quase agressão de dois jogadores (André Dias e Hugo) do São Paulo; uma semana depois Obina e Maurício do Palmeiras trocaram socos em campo; na semifinal da Sul-Americana os jogadores do Fluminense e do Certo Porteño entraram em confronto; temos as declarações do presidente do Palmeiras, o Belluzzo, em relação ao árbitro Carlos Eugenio Simon e a agressão sofrida pelo atacante Vagner Love, cercado por torcedores do Palmeiras em uma agência bancária próxima ao clube e o caso mais recente foi a queda do Coritiba à 2ª divisão e que acabou com o campo invadido e estabeleceu-se uma verdadeira guerra campal. Como pensar a questão da violência no futebol quando ela transcende a própria esfera esportiva? A violência no futebol seria reflexo da violência na sociedade?

Sim, em parte reflete as violências sociais. Em parte, mas não em linha direta, mecânica. As desigualdades e as exclusões sociais são elementos macrossociais que influenciam mesmo o âmbito específico da violência no futebol. Agora, há particularidades que são próprias do ambiente do futebol, embora não sejam exclusivas, como a cultura da masculinidade, o machismo, o biombo da multidão, a teatralização pública, o despreparo das polícias para os distúrbios de grandes massas, entre outros fatores.

Para você, quais foram as principais questões levantadas e enfrentadas por pesquisadores de diversas áreas das ciências humanas, desde a década de 1990, que trabalharam a questão das torcidas e da violência? Como estes estudos, realizados em diferentes partes do país - por Luiz Henrique de Toledo, Heloísa Reis, Bernardo Buarque de Hollanda, entre outros -, dialogam entre si e inclusive com o seu trabalho?

Todos os citados são autores com estudos do mais alto nível e da mais alta contribuição, para o acervo das ciências humanas, no que diz respeito às pesquisas sobre torcidas e violências no futebol. Sim, eles tem dialogado entre si, tanto no nível da interlocução de seus trabalhos, como nas interações pessoais e acadêmicas que se fazem necessárias. São vários os problemas que se levantam a todo instante em trabalhos dessa natureza. Contudo, dois problemas, creio eu, são centrais: como integrar a micro com a macro violência, sem mecanicismos ou determinismos; e como realizar a pesquisa de campo, sempre problemática nos casos das torcidas organizadas.

O que podemos esperar, em termos de organização e resultados, da Copa do Mundo de 2010, a primeira a ser disputada no continente africano?

O mundo estará de olhar atento à primeira copa realizada no continente africano. Já temos sinais positivos, como os programas de redução e prevenção da Aids, com resultados já animadores, mas também temos sinais negativos, como no atraso da implantação dos projetos de segurança. Culturalmente será uma grande oportunidade para todos. Para nós brasileiros, pelo menos em parte, uma chance de reencontramos algumas das raízes de nossas identidades culturais.

O Brasil será sede dos dois maiores eventos esportivos do mundo, a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016. Como ficará a questão da violência durante os eventos? É possível pensar em legado social ao término desses megaeventos?

Copa em 2014, jogos em 2016... Que oportunidade! A questão-chave é como vamos aproveitar esses megaeventos esportivos, especialmente no legado e mais ainda para as camadas desfavorecidas da sociedade brasileira, com as quais temos uma dívida estrutural e histórica. A segurança e o controle da violência são questões de fundo, porque facilitam a implementação consistente das outras medidas planejadas e desejadas. Acho que é possível esperarmos uma herança positiva para a sociedade brasileira, mas é essencial não perdermos a visão crítica, porque nenhum evento esportivo será a panacéia, o remédio para todos os nossos males, que são seculares, mas é claro que poderá ajudar e muito. Depende de nós, sobretudo dos governos.

Quais são os seus projetos atuais relacionados, mais especificamente, ao fenômeno futebolístico?

Estou pesquisando e escrevendo, pelo mestrado da Universo, onde sou titular de Sociologia dos Esportes, sobre a dimensão mais sombria da violência no futebol, aquela que resulta em mortes. Nos últimos dez anos, de 1999 a 2008, os dados e análises não são nada animadores. Os óbitos são crescentes e atingem em sua maioria (78%) os torcedores, que não têm nenhuma relação com os grupos violentos das organizadas. Um país que vai sediar a Copa do Mundo, em 2014 e os jogos olímpicos em 2016, não pode tolerar isso. É preciso um conjunto de ações interligadas: de repressão no curto prazo, de prevenção no médio prazo e de reeducação no longo prazo. Já estamos muito atrasados, apesar do ôba-ôba, que lamentavelmente começa no governo federal.

A partir da sua experiência com estudos sobre as relações entre o esporte e certos planos artísticos – como, por exemplo, o cinema -, conte-nos como está sendo adaptar o livro "Todo esse lance que rola” para o teatro?

Esse romance infanto-juvenil, que escrevi em 1994, ganhou um prêmio do Ministério da Educação e foi tema de trabalhos em quase todas as escolas públicas do país e em muitas da rede privada. Conta a história social do futebol brasileiro, a partir do namoro entre dois jovens. O grupo Educart Tocando em Você, do bairro da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma escola de artes que já tem mais de 20 anos de experiência, está adaptando o livro para o teatro, na versão de um musical. Sou suspeito, mas diria que está ficando muito bom. Deverá entrar em cartaz, no próximo ano e aí quem vai ter a última palavra é o público. Espero que gostem.

Do Sítio www.ludopedio.com.br

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Legítimo Objeto Acadêmico


Professor do Departamento de Ciências Sociais do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), o sociólogo Mauricio Murad é coordenador do Núcleo de Sociologia do Futebol, fundado em maio de l990. Nestes vinte anos de existência, Murad e seus colegas desenvolveram algumas linhas de pesquisa, bem como procuraram organizar um importante acervo documental sobre a temática do futebol. Além disso, o Núcleo editou cinco números da revista Pesquisa de Campo, que tinha como foco publicar artigos e outras produções sobre futebol. Nesta entrevista, o professor Mauricio Murad aborda o processo de criação do Núcleo e da revista, bem como alguns dos temas que vem pesquisando nas duas últimas décadas.

Primeira parte

Conte-nos como foi a sua formação em Ciências Sociais no contexto do início da década de 1970.

Foi no período mais sombrio da sombria ditadura militar, na conjuntura do governo Médici, o mais violento de todos os violentos governos da ditadura militar. Uma época muito difícil, de brutal repressão, censura, tortura, entreguismo das riquezas nacionais ao grande capital estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos. A universidade brasileira foi duramente agredida pela ditadura e a minha geração resistiu como pode. Houve muitas prisões e expulsões pelo decreto-lei 477, que era o A.I.5 das universidades. Foi um período de lutas, de resistências, de combates, de algumas poucas vitórias e muitas derrotas.

Como surgiu o interesse pela Sociologia do Esporte entre o período de graduação e a formação do Núcleo de Sociologia do Futebol.

Em 1971, ainda com estudante, assisti uma palestra ótima do Anatol Rosenfeld, no IFCS da UFRJ, onde eu fazia o curso de Ciências Sociais. Nela, o Anatol deu uma informação que foi decisiva para mim: na Universidade de Colonia, na Alemanha, havia um setor específico das ciências sociais para estudar os esportes em geral e particularmente o futebol. Conversamos ao final da conferência e nos encontramos depois, por duas ou três vezes. Saí dessa palestra com a cabeça feita: por que o Brasil não tem isso? Claro que naquela conjuntura o futebol era usado politicamente pela ditadura, como foi o caso da Copa de 1970, e por isso era mal visto entre os intelectuais de esquerda. Sempre desconfiei desse papo de “ópio do povo”, mas era o que prevalecia. Então, a idéia ficou adormecida em mim, até que em maio de 1990, muito depois, quando já era professor do Departamento de Ciências Sociais da UERJ, propus a criação, consegui aprovar e coordenei por 10 anos o Núcleo de Sociologia do Futebol. Foi um instante único para a UERJ e marcou um pioneirismo na universidade brasileira, como um todo. Articulamos-nos dentro e fora da universidade, dentro e fora das ciências sociais, dentro e fora do ambiente específico do futebol, incluindo a música, o cinema, a literatura, as artes plásticas etc.

Como foi a criação do Núcleo de Sociologia do Futebol?

Iniciamos organizando um arquivo de jornais e revistas, que depois foi ampliado com documentos, livros raros e doações de variadas origens. Estruturamos também uma audioteca e uma videoteca com gravações de inúmeros depoimentos, de jogadores, ex-jogadores, pesquisadores, artistas, jornalistas, árbitros, dirigentes, torcedores. Integramos o trabalho que realizávamos na UERJ com os meios de comunicação, divulgando o projeto de mostrar o futebol como patrimônio cultural, como elemento central de nossas identidades coletivas. Em outras palavras: ver, sentir e estudar o futebol, para além das “quatro-linhas”, o futebol como fenômeno de massas, como cultura coletiva.

Conjuntamente com a criação do Núcleo foi implantada a disciplina de Sociologia do Futebol que conta atualmente com 11 turmas concluídas. Como você traça o perfil dos alunos que fizeram a disciplina? É possível traçar uma linha do tempo teórica a partir das leituras propostas no curso?

O Núcleo foi criado em maio de 1990 e a disciplina eletiva Sociologia do Futebol foi implantada a partir de junho de 1994, na conjuntura da Copa do Mundo dos EUA, a copa do nosso tetracampeonato mundial de futebol. Algumas centenas de alunos e alunas (mais alunas do que alunos: interessante questão de gênero está contida aqui...) passaram por essa disciplina, que foi um sucesso. Fomos obrigados a oferecê-la quase que em todos os semestres, direto, o que não é habitual em se tratando de disciplinas eletivas. Alunos e alunas de Ciências Sociais, História, Educação Física, Direito (por causa do direito esportivo), Psicologia, Geografia, Nutrição, Pedagogia, alunos de quase todos os períodos, idades e com interesses bastante variados. É possível, sim, traçar uma linha do tempo a partir das leituras do curso. Fizemos uma proposta de periodização da história social do futebol brasileiro, que começou em 1894, quando a modalidade chegou ao Brasil, até os dias de hoje, passando por diversas fases: a da exclusão social e racial, a implantação do profissionalismo, a das conquistas clubísticas (como o Santos de Pelé e o Botafogo de Garrincha) e especificamente da Seleção Brasileira.

Também a partir do Núcleo surgiu a revista Pesquisa de Campo, um periódico destinado aos assuntos sobre o esporte, em especial, sobre futebol. Como foi a experiência da revista e por qual motivo ela deixou de ser editada?

A revista Pesquisa de Campo, considerada por muitos estudiosos um marco na história da implantação dos estudos do futebol, nos cursos de Ciências Sociais no Brasil, entrou em circulação, também, a partir de junho de 1994. Fizemos um número zero e chegamos até o número cinco, quando ficou impossível, lamentavelmente, seguir em frente, por causa da falta de financiamento ao periódico. Foi uma pena, porque a revista marcou uma época, deixou uma tradição e uma boa lembrança. Ainda hoje em dia é possível encontrarmos referências a ela em dissertações de mestrado e teses de doutorado, sempre indicada como uma publicação pioneira.

Até recentemente, havia muito preconceito em relação ao futebol ser um objeto de estudo da academia. Contudo, podemos dizer que hoje isso já diminuiu. Como você lidou com isso desde suas primeiras pesquisas?

Ainda há preconceitos, sim, em relação aos estudos sociológicos, antropológicos, históricos à volta desse fenômeno social multifacetado, que é o futebol, esse “fato social total”, para usarmos uma categoria de Marcel Mauss. Todavia, é preciso dizer que melhorou muito. Hoje é difícil alguém ousar dizer que é alienação estudarmos o futebol, este “tema menor”. Mesmo quem acha, e ainda tem gente que acha, fica meio sem graça e não tem muita coragem de assumir. No início foi muito complicado, porque tivemos que enfrentar muitos obstáculos epistemológicos e político-ideológicos. Foi um longo processo de debates teóricos e metodológicos, convencimentos, parcerias, aumento da massa crítica e incorporação de nomes importantes de outros setores da vida cultural brasileira e estrangeira, para ajudar a remover esse entulho autoritário contra os temas da chamada “cultura popular”. Muitas vezes tínhamos que fingir não escutar as ironias e tentar provar com bons e consistentes trabalhos que estávamos no caminho certo. Os debates públicos, em seminários e congressos, também foram fundamentais.

(amanhã a segunda parte)

Do sítio www.ludopedio.com.br

SRN

domingo, 8 de agosto de 2010

Pela Síntese


Adriano e Vagner Love, em contraste: Val Baiano e Borja. Mas, a síntese que falta pode ser expressa em Kleberson: logo no início, num cruzamento da direita, tentou matar de chilena, evidente que pela posição que ocupava em relação à bola dentro da área, a bola espirrou e o Flamengo perdeu uma oportunidade quase dentro da pequena área; ao final do primeiro tempo, o mesmo Kleberson, numa diagonal pro Borja entrando pelo meio. Sem chance: o colombiano parece jogador de pelada, bateu muito embaixo, de primeira, por cima do travessão dos capiaus.
Ao final do jogo, tivemos duas oportunidades defendidas pelo "orra, meu! oh louco!".

Paciência.

A contradição ainda em movimento.

A síntese virá.

P.S. Mantive o desenho porque não foram os capiaus que venceram, fomos nós que, em movimento dialético, ainda não tivemos condições de praticar o determinismo.

SRN

É o tal negócio:

SRN

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Caixa, cbf, são paulo e as bolas de gude

Refazimento


Por Tadeu dos santos

Há filmes e livros que fazem aflorar o surrado “poxa! Gostaria de ter feito isso”. Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças é um deles. A direção é de Michel Gondry, mas o de que mais gosto no filme é o roteiro. Seu autor é Charlie Kauffmann, o mesmo de Eu Quero Ser John Malkovich.

Um casal passa pelo auge da insatisfação mútua e a mulher resolve se submeter a um procedimento consistente em extirpar de seu cérebro todas as lembranças referentes à relação que até então mantinham. Após a intervenção a vida segue sem que qualquer vestígio do antigo relacionamento faça parte dos seus dias vindouros.

É ou não uma ideia sedutora? Qual de nós já não se flagrou acalentando a possibilidade de se livrar definitivamente daquelas lembranças obsessivas? Não são poucas as lembranças que nos prendem ao passado, que impedem o avanço e que, sobretudo são estéreis. Nada resgatam. Nada consolam. Apenas oprimem e tolhem.

Há, por outro lado, os que discordam do roteiro. Afinal amar é algo diverso de um mero catar de feijão, onde lançamos os bons à panela e os ruins ao lixo. Fica-se com o todo e o todo nos molda, e o todo nos prepara para a próxima.

Não descerei aqui às modernas análises que tratam dos benefícios de uma boa dose de sofrimento. A discussão esbarraria em preceitos religiosos, esbarraria na psicologia, namoraria a filosofia e ao fim e ao cabo, não seriam poucos aqueles que acorreriam à empresa Lacuna para o fim de extirpar o que ainda ficasse do texto a circular pelo cérebro.

Vou apenas atrelar o roteiro de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança à paixão clubística. Se possível você detonaria aqueles reveses que os adversários vivem a lhe atirar ao rosto?

Aquele maldito gol de barriga aos 41 minutos do segundo tempo na decisão do campeonato carioca de 1995. O pênalti perdido por Titã na decisão de 1977. A eliminação da Libertadores de 2008, com aqueles três nefastos gols de Cabãnas.

Não os tiraria. Eles ficaram lá onde estão. Atormentam-me às vezes, é verdade. Mas são ingredientes da argamassa que moldou o amor que sinto pelo Flamengo. Já fui acometido do mais absoluto mutismo, já chorei, ri, esbravejei. É um amor-limite. Prenhe de contrastes, de emoções díspares, incontidas.

Elas permaneceriam lá a me lembrar do quão resistente e incondicional é esse amor.

Ademais vai que se extirpe em excesso. Vai que de roldão siga ao limbo a cabeçada de Rondinelli, o chute desafiador da lógica de Nunes na decisão do brasileiro de 1980, o ano de 1981 e também todas as lembranças de Zico, Leandro, Geraldo ...

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

"Cada Garrafa"


Por Jeremias Machado

Acompanho o blog e resolvi colaborar. Sou rubro-negro e a história que segue aconteceu comigo. Os nomes (exceto o meu), bem como alguns dados e fatos foram adaptados, outros cortados, mas permanece o sentido: a perda de função de um indivíduo que nem sequer conserva a identidade. Ficou só o Flamengo.


Numa estrada vicinal à Amaral Peixoto, a caminho de uma das praias da Região dos Lagos onde eu iria comprar uma casa, o carburador do meu fusca, de repente, começou a ratear, obrigando-me a parar. Estávamos em junho, era por volta da meia-noite, e a baixa temporada que faz da região um oásis maravilhoso nada me permitia senão procurar ajuda na casa do outro lado da pista. Ainda relutei, parado alguns instantes ao lado do triângulo de sinalização que armara, à espera da passagem de algum carro. Sem chance, desisti. Dirigi-me, então, àquela casa, aliás, a única em que parecia ter gente. E foi ao me aproximar do portão de réguas de madeira com o braço esquerdo estendido em direção à campainha, que Renata apareceu dentro de uma camisola preta

- Boa noite, filha, e me desculpe. Mas você não tem ninguém aí que possa me dar uma força ali com o fusca?

Agora que encostara no portão, a luz do telheiro iluminando o seu corpo, pude ver como era : mais ou menos um metro e setenta, coxas grossas, canelas grossas, cabelos lisos e escorridos, caindo sobre dois seios túmidos em forma de cálices, prontos para serem sorvidos. Não podia dizer-lhe a idade, qualquer uma entre trinta e quarenta e cinco anos

- Quem gostaria?

"Gostosa, mas maluca" – pensei – "Que papo é esse de 'quem gostaria?” - Meu nome é Jeremias e eu...

- Jeremias, o profeta?


Deitamos sobre a grama.


Um carro passou devagar. O farol alto, através da cerca de arame farpado, que nos separava da pista, evidenciava o insólito de nossa situação: um casal praticamente nu, de madrugada, na frente do terreno de uma casa com o portão aberto.

Era melhor levá-la para dentro; depois eu iria ver o que fazer com o fusca. Com habilidade, para não acordá-la, subi a calça, apertei o cinto e levantei. Procurei levá-la com cuidado até a casa que ficava no fundo do terreno. Como eu suspeitara, não havia ninguém. Então, fui entrando: atravessei primeiro um cômodo grande bastante iluminado ( pelo menos assim me parecia, no contraste da escuridão daquela noite de junho e do resto da casa, que, aliás, era pequena ), onde funcionava uma espécie de oficina, com inúmeras ferramentas penduradas em pregos em tábuas de madeira presas nas paredes: vários tipos de formão, de chaves de fenda, alicates, martelos de ferro e de borracha , uma miríade de pequenos objetos de ferro ou de aço, que não conseguia identificar. A quantidade de serragem no chão e pedaços de madeira cortada em cima de uma bancada, também de madeira, indicavam que a oficina estava em uso. Ela devia morar com alguém, mas não me detive nesse pensamento. Passei pela cozinha e pela sala pequenas, chegando no estreito corredor que dava acesso a dois quartos e ao único banheiro da casa. A ausência de laje sob o telhado espalhava por sobre as paredes internas a iluminação da oficina, dispensando o esforço de ter de procurar os interruptores. Até ali, como disse, nenhum problema, a não ser o de escolher o quarto, pois não sabia onde deitá-la: em ambos a mesma cama de casal e o mesmo armário, apenas. Escolhi o quarto da esquerda, o que dava para a fachada: abriria a janela, ventilaria a morrinha com o vento filtrado entre as árvores do terreno.

O ar purificado e fino correu pelo corpo de Renata, eriçando-lhe os pelos. Deitei-a na cama, o rosto virado para a janela, de modo que arejasse o escorrimento do nariz; saí do quarto, pensando no fusca. Que se dane, quase duas da madrugada, lugar isolado e com pouco movimento. Além disso, eu queria relaxar, acalmar a excitação, que me despertara a vontade intensa de beber, depois de tanto tempo.

Na penumbra da sala, uma rede rubro-negra, pendente de ganchos nas paredes.

Havia na sala pequena, além da rede onde eu me deitara, uma mesa transbordando de papéis, com vários vidros de tinta em volta de uma luminária de madeira, na forma de arco, simulando uma cópia de desenho italiano. A oficina, as camas e os armários iguais, esse arremedo de luminária – evidente que o cara que morava aqui era marceneiro. Mas um marceneiro pretensioso, cheio de referências. Apesar da preguiça, levantei da rede, a fim de examinar melhor o que havia sobre a mesa. Acendi a luminária e, misturado a esboços de móveis, charges e caricaturas indecifráveis, vi o que deviam ser rascunhos de um texto, um conto curto, que a letra de forma, desenhada em folhas bem organizadas, apontava estar concluído. “Cada Garrafa” era o título:

“A noite escorre uma insônia lenta, tapando à gaze um passado que beira à hemorragia. E o álcool é um placebo, segurando a onda que me detona no fluxo sobre o sangue, quer lubrificante como o que estabiliza, quer pólvora de combustão instantânea, indomável ao controle por veredas tão expostas como as que em mim encontram para espalhar-se.

Álcool vem do árabe, mas a cachaça, que é brasileira, é feminina, prendendo as pernas, sedutora na leveza com que me conduz. O corpo fixo pela cabeça, já rendida. Não dói o corpo satisfeito. A cabeça líquida, nas curvas em que se concentra: um ambiente sem raízes que eu cultivo para o sexo sem hora, a qualquer hora, brinquedo, a escultura, a liberdade, a perspectiva de aroma eucalipto, a mangueira a um passo, bastando a vontade para o olhar livre, sem obstáculos de volumes ou vizinhos.

Cada garrafa é um convite sem cerimônia ao exercício de catarses; à cabeça as vísceras, espremendo-as contra o cérebro, forçando a boca, que não consegue vomitar. A cabeça suspensa. Um pouco da cachaça, como conta-gotas. Antes o vômito do alívio que me viabilizava, numa torneira aberta em ligação direta com o estômago, levando miojo, biscoito de polvilho, até secar. Os dias seguindo, a rede, “Doors”, “Nirvana”, “Led Zeppelin”, o chão da mangueira, sem força.

Talvez escreva para adiar o gole, mas não adianta, na espreita dum bom negócio, escroto metido à artista. Minha arte não passa de artesanato. Soa falso como bom gosto, que, de resto, não existe. Ou é arte, que só pode vir da necessidade, ou não passa de afetação.

E quanto à marcenaria? Meu cunhado, que foi meu sócio, é quem tinha razão: se marcenaria resolvesse a vida, Jesus não a teria abandonado para fundar o cristianismo. Logo eu, que trabalhei naquele carnaval. Cliente filho-da-puta: não apareceu, nem deu satisfação. Veio a quarta de cinzas. Nada.

“Da última vez em que aí estive (a quarta, desde a instalação dos lambris), um almoço, agora com malaios, mais uma vez impediu que nos entendêssemos. Primeiro, quero relembrar o acordo. Como marceneiro, fui contratado para executar projeto que me foi dado por sua filha, arquiteta, em janeiro – em função do qual prontamente elaborei orçamentos (material/mão-de-obra), não me cabendo desde logo qualquer responsabilidade por erros que não fossem absolutamente meus. Depois uma “estrutura mais profissional” não recomeçaria do zero. Lembre-se da escrivaninha da secretária. Repare como o seu desenho em curva levou-o a reconhecer que um novo acordo se impunha. Resultado: o material continuava o mesmo, mas a mão-de-obra havia mudado. E o novo acordo? Esqueceu-se de que o princípio da qualidade costuma valer mais do que o da quantidade, na execução de peças cada qual mais complexa?

P.S. – Quanto a sua mesa, minha obrigação seria acabá-la nos moldes de como foi projetada. Já a cortei, transformando-a em outro equipamento – distinto, portanto, do combinado. Isso é outro serviço e você vai me pagar por ele.”


Antes de sair, dei uma olhada em renata, que dormia tranquila. Só, então, percebi uma espécie de baixo-relevo, razoavelmente bem entalhado, em madeira escura, pendente de um dos ganchos da rede rubro-negra. Aproximei-me:

"Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Júnior
Andrade, Adílio e

ZICO

Tita, Nunes e Lico.
"