terça-feira, 30 de outubro de 2012

Ratatá pra Cracudo


Por Tadeu dos Santos, graduado em Ciências Sociais e Direito pela UERJ



Há uma considerável quantidade de filmes a tratar dos zumbis. E são diversos os tratamentos. Zumbis são perfeitamente adaptáveis à comédia, ao terror apocalíptico e ao drama, dentre outros. O traço comum a caracterizar os zumbis é a despersonalização. Sim, zumbis não tem nome, não tem amigos e também não tem família. O andar é comum, pesaroso, arrastado. As expressões também são idênticas. A boca escancarada e nos olhos um misto de terror e vazio existencial.

No período anterior à transformação, a personagem tem nome, família, CPF e identidade. No momento seguinte, contudo, é apenas mais um na multidão. Convola-se então em carne pronta pro abate. Alvejado por bala, fogo ou algo perfurante, o zumbi não se faz destinatário sequer de um enterro mais ou menos cristão. Também não se faz depositário da piedade de quem quer que seja. Afinal de contas ele é apenas e tão somente um zumbi.

Entre nós ganha corpo a comparação cracudo/zumbi.

Os olhos seguem postos no chão à procura de algo que possa ser trocado por pedrinhas. O andar também é arrastado, os olhos, de igual maneira, se fazem desertos de esperanças.

Há homens e mulheres. E há velhos, jovens, adolescentes e crianças. E esses desvalidos não tem nome, nem família e tampouco amigos. São números, meros dados estatísticos. E ainda que soe tão cruel quanto a contagem que se aproxima do dez ao mesmo tempo em que há um corpo sem rosto caído no chão, a conclusão inelutável é que sim, são zumbis. E que o nocaute que se avizinha põe-nos todos, sem exceção, à lona.

Nesse passo, trago à tona o manifesto antiinternação de adultos em que são signatários................

Em apertas linhas, arvora-se o manifesto na defesa da dignidade dos habitantes da rua, dentre eles, claro, os cracudos, afirmando ser de todo inaceitável a internação compulsória.

Separar os cracudos/zumbis por categorias do tipo criança, adolescente e adulto é negar-lhe o nome, a origem e suas relações de parentesco. A ideia ínsita ao adulto é a de alguém que é senhor de sua vontade e livre para decidir o destino que melhor lhe pareça.

Conferir ao cracudo/zumbi o mesmo tratamento dispensado aos adultos, digamos assim, normais, é olvidar-se, ás inteiras, da realidade circundante.

Para quê e a quem serve esse discurso?

Decerto, ao comércio paralelo que viceja à volta da cracolândia. Ali tudo convola-se em mercadoria. Desde panela velha até enxoval antigo. Ouro e bijuterias também servem. Qualquer quinquilharia desde que adquirida por preço vil.

Esse discurso também se faz bálsamo aos ouvidos do traficante. O atendimento é 24 horas e a entrega é em domicilio, haja vista que já estão todos ali pela rua.

Desnecessário dizer que o tráfico envolve a parte podre da polícia e as milícias.

Pois bem, a todos esses segmentos esse discurso se faz música aos ouvidos. São seus grandes beneficiários.

Sim! Eles também se fazem música aos ouvidos de seus próprios prolatores. É uma puta massagem no ego. Eis-me aqui Quixotescamente investindo contra o Estado personalizado na figura pública do Prefeito. Defendo adultos cujos nomes e filiação desconheço. Também não sei se eles tem filhos ou amigos. Dizem que vivem na rua, os dentes andam aos pedaços, trazem o deserto no olhar e os mais céticos dizem que são zumbis. Mais ainda há, decerto, em meio a tudo isso, algum resquício de honra que a mim cabe defender.


Irônico, não? Faz parte da pregação de esquerda o estado multifuncional. Ele é grande. É tentacular. Ocupa-se da saúde, da educação, da segurança, distribui bolsas, organiza o sistema de cotas, legisla acerca do petróleo e é, sobretudo, protecionista. Cheguei a ouvir de gente muitíssimo bem intencionada que preferia a cadeira de uma estatal petrolífera ocupada pelo paletó de um funcionário fantasma do que a exploração do petróleo entregue à iniciativa privada.

Os adultos que não serão internados compulsoriamente estarão mortos em seis meses. A família não terá, nesse momento, condições de arcar sequer com o enterro. Fica, pois, a sugestão:

É de bom alvitre que a par da coleta de assinatura para o nobre manifesto, role também uma vaquinha para o fim de bancar os futuros enterros. Talvez essa atitude não se revista lá da dignidade propalada pelos signatários do documento, mas será de uma utilidade e tanto.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Manifesto Cracudo


Por Máximo

Nas cracolândias, a história que se vê não é baseada nem na raridade nem na abstração. Cracudos estão em quantidade. Cracudos precipitam a exploração. Cracudos estimulam a disputa pelo excedente. Cracudos são um estorvo. Pra que conhecer a realidade, suja, desagradável, limpa de fetiches? Cracudos podem ser moídos. São livres, completamente livres, absolutamente livres: não precisam mover-se entre a sintaxe e a ordem política e social, conforme escreveu Graciliano em "Memórias do Cárcere". Liberdade absoluta só desfrutam os espíritos; em breve, o que serão os cracudos, agora apenas zumbis.

SRN


domingo, 28 de outubro de 2012

Hoje é o Dia da Nação Rubro-Negra

Por Vinícius de Moraes

Raul, Leandro, Marinho, Mozer e Junior, Andrade, Adílio e Zico; tita, Nunes e Lico.

SRN


sábado, 27 de outubro de 2012

"Só Por Hoje"

Por Máximo

"Só por hoje" é um lema que todo adicto conhece, na limpidez cristalina em que não há brilho nem se dá um teco, tampouco o primeiro gole. Só por hoje, porque a clareza também se faz necessária ante a gordura espessa da irresponsabilidade de quem fala sobre o que não conhece. É muito simpático falar de liberdade e acusar o prefeito, que pode ser alvo de tudo, menos de tentar salvar uma craqueira (desculpem-me, mas sem chance pra eufemismos corretos). Droga (álcool também é, embora não pareça) quando entra na pista não se sabe qual o limite. Para alguns, o valor atingido pode parecer irrelevante para outros. E aí a busca da ajuda, "não dá mais", muitas vezes só restando a mãe (como escreveu Marcelo Rubens Paiva para outro contexto: "mãe é a única instituição que não faliu, ainda"). Craqueiros parecem atravessar uma fronteira para além do humano. Perderam o referencial, até a capacidade de se sentir atingidos. Trata-se de um problema de saúde pública, coletiva, e como tal não pode ficar mais circunscrito ao âmbito do privado. Surpreende marxistas (será que são ou leram apenas orelhas de livro?) se utilizaram do "privado" justo nesta questão. 

SRN


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

‎"Que grande jogador nós perdemos pra cocaína."

Por Máximo




Foi Pelé quem vestiu o Manto, mas Maradona talvez estivesse Nele muito mais à vontade. Ouvi-lo falar sobre a cocaína, as contradições explícitas de um humano que, de fato, conheceu o calvário. Em Pelé, a memória quer o sagrado, em Maradona, sua história é profana. E a função da história é justo desmitificar a memória, denunciar-lhe o engodo, expor-lhe as vísceras. 

O argentino nos esclarece expondo-se. Fala do gol contra a Inglaterra, o maior de todos as copas, bem como sua atuação, a maior, individualmente, de todas as copas, carregando literalmente nas costas um time medíocre, o da Argentina em 1986. Disse tratar-se de um gol óbvio. Porque era ele. Fora do campo ele era a cocaína, que o limitava. E conclui:

"Que grande jogador nós perdemos pra cocaína."

Curioso como todo adicto possui sempre uma culpa impossível à expiação: a do desperdiçar-se. E, ao fim, resta a idade, pouco mais ou menos, meio século. 

Valeu Maradona. Grande canhoto. O Maior jogador que vi. Dia 31 faz 52 anos.

SRN

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Barbosa Não É Juiz de Disputa de Memória


Por Máximo



Não vejo em Barbosa um árbitro de disputa de memórias. Ele não é historiador, mas juiz - o que,  antes, não o impede de sensibilidade política. Custa-me crer que Barbosa faça o jogo de tipos como o que responde à filha do Genoíno, embora deva saber muito bem que nada na sociedade é desinteressado.

O espantalho moralista sempre foi um instrumento de poder. Classes médias não são à toa permeáveis: fiéis da balança, têm seus fantasmas ardilosamente estimulados por golpistas que a ameaçam justo com um retorno às próprias origens: acaso profissionais liberais querem deixar de ter empregadas domésticas, ou se quiserem, abandonariam hábitos patrimonialistas históricos?

A construção do fato histórico, como aprendo aos trancos e barrancos, implica reconhecer na evidência um suporte de relações. A apropriação do sentido da ação de Barbosa, se pode dar vazão ao idiota que responde à filha do Genoíno, não obscurece a arrogância irresponsável, atrabiliária, de um grupo que entendeu Lenin na terra do Tiririca. Até um ex-gordo de bufonaria participava com sua ária de rapina afiada, acostumada que era a servir a qualquer governo, desde que - é natural - com a remuneração devida. 


Barbosa deveria evitar o óbvio?

Como um sujeito que está mais pra anarquia, que não se acostuma com nada que começa a se cristalizar, tanto que gosta muito dos amigos, mas gosta mais ainda quando eles vão embora, (plagiando o pai de Picasso), fico muito satisfeito e compartilho com Barbosa ser alvo de ataques tanto à direita, quanto à esquerda. Curioso, não?

SRN

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Exposição da Casa Tradicional

Por Máximo


A explicitação das contradições, naquela casa tradicional, talvez seja o grande legado de Joaquim Barbosa. Lewandowski e Mendes em confronto sobre o modo de votar a respeito do desmembramento do processo que envolve Garotinho o os demais, sem foro privilegiado. Lewandowski diz que não é aluno de Mendes e Mendes é o de sempre. 

Uma maravilha.


SRN


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

domingo, 14 de outubro de 2012

A Tricolagem Invertida

Por Máximo


Pastel seco, mal feito, baseado na foto clássica (Emo Shneider, em 21/abril/1961) de Jânio trocando as pernas, como convém, sobretudo neste domingo, em que a tricolagem, na mais completa e típica ausência de critério da arbitragem nacional (haja vista o que ocorreu em Minas com o frango de farofa), empata de penalti e vira com um gol de falta invertida (a falta foi feita pela tricolagem). É o tal negócio...

SRN


Jacarezinho: "Cuidado com o Disco Voador". Jorge Ben


Rio São Armas

Por Máximo


A operação no Jacarezinho e Manguinhos, através da globonews, não nos permite ficar impassível. Cada dia Bourdieu está mais vivo: o jornalismo não pode ficar nas mãos dos jornalistas. Mas, não é só: Bourdieu também acertara quando afirmara que "intelectual e erudito" deveriam só ir à televisão se fossem nos seus próprios termos e não pra atender a exigências da programação. 



Vimos a sucessão de estereótipos confirmados por quem deveria, ao menos, fornecer a crítica. Pérolas são o seguinte: as comunidades asfixiaram as fábricas do entorno, causando a sua migração. Certo, a culpa é do povo, daqueles que um dia trabalharam em ritmo de Manchester, nos primórdios da revolução Industrial, por exemplo, na Company (quem tiver mais de 30 anos, certamente lembrar-se-á). A culpa é da comunidade do entorno, evidentemente. 

Uma dúvida, apenas:

E a lógica de um capitalismo de segunda, periférico?

SRN

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Palestina


Qual desfecho do Freixo?


Por Máximo

O PSOL me parece guardar certa analogia com o moralismo de classe média que caracterizava a udn lacerdista. Lembra-me uma udn roxa, não mais vermelha, porque para além do PT, como este uma vez foi chamado: udn vermelha. Francamente, não há vestal em política e a atitude do pessoal que fundou o PSOL, justo no momento do mensalão, como se fossem freiras da rua Ceará, que nada sabiam, nunca me convenceu. 

Quanto ao Freixo, quero ver em que consistirá, efetivamente, a tal "resistência", política como "um instrumento de luta". Indispensável, de resto, conhecer o próprio tamanho, saber que não somos a "vanguarda do proletariado' e que há na vitória do Paes muita racionalidade que ninguém pode subestimar sob pena de pretender substituir o próprio povo, que, de resto, somos nós mesmos.

SRN


A "Veja" a R$1,99 no Iguatemi, em Vila Isabel


Por Máximo


Na Teodoro, rua em que morou Noel, do bangalô de cuja varanda fez o que fez, "Com que Roupa", e por aí vai, também havia o campo do América, o "Mequinha", o único segundo time de todo Rubro-Negro. Tinha-se acesso ao campo, subindo a escada da igrejinha de Santo Antônio, ali até hoje, descendo o morro pequeno, até cair atrás das arquibancadas de ferro e madeira, do tipo da que já foi na Sapucaí, antes do Sambódromo. Neste campo, vimos treinar a seleção de 86, a segunda do Telê. 


A casa de Noel virou um prédio, o campo um shopping e o América praticamente acabou. 

Assim como a "Veja", que um dia já foi potável. Hoje não passa de um shopping que vende barato suas colunas de aluguel pra comerciantes sem nenhum tipo de talento. Mercadorias bem adequadas. A Veja é o "Iguatemi" de Vila Isabel. É tão ruim que não encontramos "Era dos Extremos". Exatamente como na "Veja" que falsificou um Hobsbawm inadequado até pra loja de 1,99 que havia naquele shopping.

SRN




Niemeyer Longe De Ser Uma "Gracinha"

Por Máximo


Morto, de resto, não tem defeito: é só "gracinha". Vida que segue, como dizia o Grande Saldanha que, a despeito de botafogo, merecia, de fato, justas homenagens. Com a morte de Hebe Camargo, as bobagens de sempre. Mas, o que aporrinha são as "gracinhas" que, ao invés de humor, não passam de piada de português, ou de papagaio. Citam Niemeyer. E até nisso o Monstro Sagrado Brasileiro, aquele a quem Darcy Ribeiro dissera o único brasileiro a ser certamente lembrado nos próximos 500 anos, não faz graça, "gracinha", pois muito bem: 

O problema do tempo é que ele também é dialético, desenvolvemos uma ironia com um nível de ansiedade cada vez mais baixo. Mas, há o corpo, a disposição que também começa a ir pro ralo. Já com mais de 80, Niemeyer, entrevistado sobre a sua criatividade incólume, o jornalista certamente esperando uma resposta filosófica, e Niemeyer na veia: 

"A velhice é uma merda."

SRN


Carolina: Colecionadores

Por Carolina Medeiros

O que vejo a minha volta
É motivo de sobra pra revolta
Uma realidade estranha
Que suga a bondade
E incentiva a maldade
O amor, a maior força que é capaz de tudo
Pode virar um grande infortúnio
Ser feliz já não tem mais graça
A vida tem que ter um sentido, não basta algazarra 
Cada um faz seu destino 
Ou então é engolido pelos sentidos
Nada é mais intenso que a própria existência 
Os dramas, as fases, os sentimentos, as alegrias nos fazem sentir vivos
As vezes feliz, contente, triste ou ausente
Querendo sumir, se esconder das escolhas
E encontrar abrigo na própria solidão dentro do coração
Viver é difícil, tem que ter jogo de cintura pra não se perder
Saber viver é uma arte
Dispensa nascer com o dom
É so desenvolver
Fazendo uso de princípios e aprendizados
Princípios pra não se corromper
Aprendizados pra conhecer e poder crescer
Mudar ou permanecer na inercia? 
É um questionamento presente
Em algum momento há de se perguntar
E a resposta nem sempre vai agradar
Somos colecionadores
De diferentes artigos e sabores
Mas sempre com dois lados
Tudo que faz muito feliz
Pode causar uma dor sem fim
Nos perdemos acreditando no pra sempre
Ledo engano
Se ate nossa carcaça não suporta esse tranco
O importante mesmo
É aproveitar o máximo
Usufruir das maravilhas que a vida proporciona
E refletir sobre as atitudes errôneas
So nos resta uma chance
De fazer, sentir, se entregar, ajudar, conquistar, amar, valorizar
Aqui e agora
Desperdício do tempo precioso e único
É o caminho mais rápido pra se chegar ao túmulo 
Cultive o essencial, aproveite o complemento e aprenda com o sofrimento.



‎Por Máximo

"Somos colecionadores
De diferentes artigos e sabores"

Há nestes versos uma sinestesia que me agrada. Os colecionadores em que nos transformamos atropelam uma soma de sensações percebidas por diferentes órgãos dos sentidos. Impossível, de fato, a um velho permanecer incólume, neutro diante da filha que lê. Na vida não existe neutralidade. E o verso seguinte que completa o sentido é um exercício difícil:

"Mas sempre com dois lados"

Não sei se Carolina consegue, mas a indicação da possibilidade revela um esforço louvável. É provável que compreender muito leve a se justificar tudo. Talvez seja útil, mas o velho que lê não alcançaria o equilíbrio ainda que quisesse. É que há o afeto. E quando se ama a isenção vai pro ralo. Quando se ama corre-se o risco do ridículo, pois não há nada mais fadado a uma charge do que a chorumela. Calculem: um sujeito aí pelos seus 50 anos, um poema nas mãos e embaixo a frase: "minha filha".

Seja como for, o fato é que não se pode negar a força desses versos de uma sinestesia, embora sensorial, limpa de gordura piegas. O texto prossegue e, à medida que o leio, ocorre-me o que Apollinaire escreveu, na defesa do cubismo, a respeito de Picasso, o maior desenhista do século passado:

"É o esquecimento depois do estudo."

De fato. Carolina escreve como um jorro. E aqui não há técnica, porque não precisa. O que quer é alívio, livrar-se do estorvo, sem contornos, não definível, por isso, terrífico.

Quando for assim, Carol, venha aqui pra casa.

Saudade.

Um beijo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Infeliz Inversão


Por Tadeu dos Santos, graduado em Ciências Sociais e Direito pela UERJ



Em apertadíssima síntese é licito afirmar que a decisão judicial decorre da aplicação de um mecanismo silogístico, a partir do qual o Magistrado estabelece a premissa maior, a saber , a lei, que é a norma jurídica hábil a dirimir a lide, e a menor, que, em suma, consiste nos fatos, para, na sequência efetuar o enquadramento (subsunção) do contexto fático ao direito positivado, gerando, assim, um conjunto de feitos jurídicos.

Enuncia-se assim, a um só tempo, a importância da prova e a devido e pertinente atrelamento desta à norma jurídica.

Foi-se o tempo em que as provas eram tabeladas e assim fato comprovado por um testemunho tinha peso y. Se provado por duas tinha peso 2 y e assim por diante.

Nos dias que seguem vigora o princípio do livre convencimento do Juíz que, no entanto, está obrigado a fundamentar as conclusões a que chegou, remetendo-se à análise e explicitação de todo o conjunto probatório carreado aos autos.

O juiz não é apenas o sujeito imparcial do processo. Cabe a ele também a espinhosa tarefa de manifestar-se acerca de fatos que não presenciou. Daí a enorme importância que tem a prova no processo.

Ouço e leio, aqui e ali (os mais notórios são Leonardo Boff e Wanderley Guilherme dos Santos – tanto apreço ao legado alheio e nenhum pelos próprios), afirmações inteiramente divorciadas da realidade dos autos. Imaginem que recentemente deparei-me com pérolas do tipo: Joaquim Barbosa decide contra as provas dos autos.

De imediato, saliento que os autos possuem 50.000 folhas e a impressão que se tem durante o julgamento é a de que o Ministro Relator decorou cada uma delas. Carece, convenhamos, de credibilidade alguém que tenta levar ao descrédito um trabalho desta envergadura.

Afirmam, de igual maneira, que este julgamento é informado por critérios políticos. Tenta-se, em resumo, esmaecer o legado do ex-presidente Luiz Inácio.

A definição de subsunção encontra-se no primeiro parágrafo. Sugiro sua releitura e, na sequência, o arrolamento das brechas permitidas pela aplicação desta técnica à recepção do fato político espúrio.

A preservação ou destruição deste ou daquele legado faz-se junto às urnas.

No mais, há apenas que se lamentar as inúmeras referências à origem racial do Ministro Joaquim Barbosa. Máximo tem razão: perdoa-se tudo em um negro, exceto o sucesso. Leio por aí o que se escreve e enxergo sempre nas entrelinhas os velhos bordões dos racistas de plantão.

Já disse alguém que quando a ideologia adentra por uma porta, a razão evade-se pela outra. É a ideologia que faz deitar sobre Hitler a pecha de monstro ao mesmo tempo em que impõe um incômodo e aquiescente silêncio acerca de Mao e Stalin.

Olvidar-se ás inteiras da usurpação do dinheiro público, bem como da tentativa de supressão de um dos poderes da República justificam-se ante a suposta sacralidade do legado de Luiz Inácio?

Creio que não.

Aliás, a aquiescência a esse tipo de coisa, demanda um alheamento da realidade muito encontradiço em meios aos adeptos de certas seitas religiosas, bem como dentre seguidores de procissão, tomadores de santo Daime (paciência) e descubro agora, aos embriagados ideológicos.

Nos meus tempos de UERJ ficávamos pelo corredor a constatar que a Direita seria capaz de unir-se em torno de qualquer circunstância que a conduzisse ao poder. Já a esquerda nem mesmo na prisão conseguia entender-se. Deixavam-se ficar por ali a desfiar suas diferenças. Não era um comportamento, digamos assim, inteligente. Mas era ético.

Em que ponto do caminho operou-se a infeliz inversão?

domingo, 7 de outubro de 2012

De fato, não existe neutralidade


Por Máximo


Um marxista tem de tomar muito cuidado com a contradição. Por exemplo, quando critica a ideologia embutida em qualquer ação humana. De fato, não existe neutralidade. E a torção que Boff faz é ideológica. Antes da conclusão sobre o cuidado que devemos tomar com a ideologia implícita, escreve o artigo com a descrição dos mecanismos ideológicos dos interesses de classe. Aponta em Celso de Mello o erro crasso. Mas, Celso de Mello é branco, filho da burguesia, e termina sempre no lugar previsível. Agora, como acusar Joaquim Barbosa? Repare no escorregão quando descreve Joaquim Barbosa "faxineiro e limpador dos banheiros, como aliás parece ter sido o primeiro e honroso trabalho do ministro Joaquim Barbosa no STE." É complicado acusar de racista, elitista e preconceituoso de classe um Ministro com a origem e trajetória de Barbosa. Desnecessário associar um discurso longo, conhecido sobre manipulação ideológica, em contraponto à defesa do legado de inclusão de Lula. Será que não percebe que a obtenção do consentimento, já obtido na disputa da hegemonia quando conduzimos Lula por duas vezes à Presidência, não se confunde e até vira problema na torção que se faz para exigir de Barbosa que os meios podem ser conspurcados a um ponto, até o ponto de comprometer os próprios fins? Ou isso é mero moralismo?

SRN






A espetacularização e a ideologização do Judiciário


Leonardo Boff

Para não me aborrecer com e-mails rancorosos vou logo dizendo que não estou defendendo a corrupção de políticos do PT e da base aliada, objeto da Ação Penal 470 sob julgamento no STF. Se malfeitos foram comprovados, eles merecem as penas cominadas pelo Código Penal. O rigor da lei se aplica a todos.

Outra coisa, entretanto, é a espetacularização do julgamento transmitido pela TV. Ai é ineludível a feira das vaidades, o vezo ideológico que perpassa a maioria dos discursos.

Desde A ideologia alemã, de Marx/Engels (1846), até Conhecimento e interesse, de J. Habermas (1968 e 1973), sabemos que por detrás de todo conhecimento e de toda prática humana age uma ideologia latente. Resumidamente, podemos dizer que a ideologia é o discurso do interesse. E todo conhecimento, mesmo o que pretende ser o mais objetivo possível, vem impregnado de interesses.

Pois, assim é a condição humana. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. E todo o ponto de vista é a vista de um ponto. Isso é inescapável. Cabe analisar política e eticamente o tipo de interesse, a quem beneficia e a que grupos serve e que projeto de Brasil tem em mente. Como entra o povo nisso tudo? Ele continua invisível e até desprezível?

A ideologia pertence ao mundo do escondido e do implícito. Mas há vários métodos que foram desenvolvidos, coisa que exercitei anos a fio com meus alunos de epistemologia em Petrópolis, para desmascarar a ideologia. O mais simples e direto é observar a adjetivação ou a qualificação que se aplica aos conceitos básicos do discurso, especialmente, das condenações.

Em alguns discursos, como os do ministro Celso de Mello, o ideológico é gritante, até no tom da voz utilizada. Cito apenas algumas qualificações ouvidas no plenário: o mensalão seria “um projeto ideológico-partidário de inspiração patrimonialista”, um “assalto criminoso à administração pública”, “uma quadrilha de ladrões de beira de estrada” e um “bando criminoso”. Tem-se a impressão de que as lideranças do PT e até ministros não faziam outra coisa que arquitetar roubos e aliciamento de deputados, em vez de se ocuparem com os problemas de um país tão complexo como o Brasil.

Qual o interesse, escondido por detrás de doutas argumentações jurídicas? Como já foi apontado por analistas renomados do calibre de Wanderley Guilherme dos Santos, revela-se aí certo preconceito contra políticos vindos do campo popular. Mais ainda: visa-se aniquilar toda a possível credibilidade do PT, como partido que vem de fora da tradição elitista de nossa política; procura-se indiretamente atingir seu líder carismático maior, Lula, sobrevivente da grande tribulação do povo brasileiro e o primeiro presidente operário, com uma inteligência assombrosa e habilidade política inegável.

A ideologia que perpassa os principais pronunciamentos dos ministros do STF parece eco da voz de outros, da grande imprensa empresarial que nunca aceitou que Lula chegasse ao Planalto. Seu destino e condenação é a Planície. No Planalto poderia penetrar como faxineiro e limpador dos banheiros, como aliás parece ter sido o primeiro e honroso trabalho do ministro Joaquim Barbosa no STE. Mas nunca como presidente.

Ouvem-se no plenário ecos vindos da Casa Grande, que gostaria de manter a Senzala sempre submissa e silenciosa. Dificilmente, se tolera que através do PT os lascados e invisíveis começaram a discutir política e a sonhar com a reinvenção de um Brasil diferente. Tolera-se um pobre ignorante e mantido politicamente na ignorância. Tem-se verdadeiro pavor de um pobre que pensa e que fala. Pois, Lula e outros líderes populares ou convertidos à causa popular como João Pedro Stedile, começaram a falar e a implementar políticas sociais que permitiram uma Argentina inteira ser inserida na sociedade dos cidadãos.

Essa causa não pode estar sob juízo. Ela representa o sonho maior dos que foram sempre destituídos. A Justiça precisa tomar a sério esse anseio a preço de se desmoralizar, consagrando um status quo que nos faz passar internacionalmente vergonha. Justiça é sempre a justa medida, o equilíbrio entre o mais e o menos, a virtude que perpassa todas as virtudes (“a luminosíssima estrela matutina” de Aristóteles). Estimo que o STF não conseguiu manter a justa medida. Ele deve honrar essa justiça-mor que encerra todas as virtudes da polis, da sociedade organizada. Então, sim, se fará justiça neste país.


Leonardo Boff, teólogo e filósofo, é professor aposentado de ética da Uerj.

Pretensão e Água Benta

Por Máximo


Há uma lição pedagógica em toda eleição. Na verdade, o que irrita é o fato dos outros, que sempre chamamos de massa, não entenderem a mensagem messiânica do que é o melhor. Mas, não estariam no seu direito ao receber uma mensagem que não pediram? O que me leva a uma outra pergunta: não é muita pretensão, a partir deste exemplo, propor uma forma de sociabilidade que sai da cabeça achando que todos têm de viver de tal jeito?

SRN


Tal e qual Prometeu seguirei resistindo

Por Tadeu dos Santos, graduado em Ciências Sociais e Direito pela UERJ



Acesso agora a internet e verifico que Rosinha Garotinho foi eleita prefeita em Campos dos Goytacazes. 

Num primeiro momento sinto-me tentado a reproduzir a famosa pérola de Pelé, a saber: "brasileiro não sabe mesmo votar". Mas o nem sempre lento passar dos anos levou-me a deixar de lado a tentadora mania de ser o detentor último de todas as verdades. Assim, deixei de lado as afirmações peremptórias, as substituindo, quando possível,  por algum tipo de questionamento. 

Em postagem recente, você falou de meios demasiadamente conspurcados que assim perderiam sua capacidade de justificar os fins que logra alcançar.

Há uma imanente necessidade de foco. Sim! Há que se focar nos objetivos. Percebam que essa máxima anda pelas bocas de jornalistas políticos, esportivos, políticos profissionais, Chefes de Recursos Humanos,  psicólogos e outros tantos. É de crucial importância que nos tornemos competitivos, eis que só assim chegaremos à meta perseguida. 

Alcançar os fins anteriormente traçados transformou-se, ao que tudo indica, num verdadeiro vale-tudo. E lá no canto do ringue, junto ao sangue derramado pelos contendores, jaz inerte a idoneidade moral. E o mais grave é que não há quem chore por ela. 

A busca da preservação do legado de Lula padece desse mal. Passa ao largo da usurpação do dinheiro público, bem como da tentativa de subtração de um dos poderes da república em nome dos fins almejados. 

A eleição de Rosinha Garotinho representa mais um duro golpe nos valores que, reconheçamos ou não, ficaram pelo caminho. 

Convoco à lembrança as imagens do jardim de Maluf. E lá estavam Lula e Haddad para, vez mais, demonstrar que sim, os fins justificam os meios. 

Essas pueris inquietações são resquícios de um tempo em que só a direita se corrompia (ao menos era essa a minha crença). Deveria, pois, conformar-me e lançar encômios ao empreendedorismo de Lulinha. No entanto, essa é a primeira eleição de minha filha e não é esse o legado que lhe deixarei. 

Tal e qual Prometeu seguirei resistindo.

A carne pra moer fornecida pelo próprio Lula


Por Máximo


A primeira reação é conhecida: "populista", "demagogo". A carne pra moer evidente fornecida pelo próprio Lula.

Defendê-lo fica um exercício de compreensão do Brasil, que não deve, por isso, partir de estratégias como as que procuram desqualificar expoentes do povo que não são adversários; antes, são também filhos do Brasil mais autêntico, a exemplo de Lula.

Lula contrariou Lenin. Mostrou que o trabalhador dispensa a vanguarda e pode produzir espontaneísmo de caráter transformador popular. Quando o PT surgiu, a despeito da adesão de intelectuais como Sérgio Buarque, ou talvez, por isso mesmo, um pensador sempre muito original e que não se enquadrava em mecanicismos explicativos, o ceticismo de que fora alvo era um disfarce para acusação de diversionismo fragmentário. 

Carlos Nelson Coutinho, recém falecido, provavelmente o maior especialista brasileiro em Gramsci, viu no PT, sem embargo das correntes que encerrava, a materialidade da "guerra de posição', de disputa do consentimento social para posterior domínio popular do Estado. A democracia passava a ser um valor. 

"Democracia burguesa"; "Estado burguês tem de ser destruído, não reformado, haja vista o fracasso da Comuna de Paris" - a carne pra moer ainda não era fornecida por Lula; antes, tinha de ser abatido e poder virar carne apta ao consumo.

Mais do que isso uma postagem neste domingo de uma lua que é o seguinte e que pede uma praia, além de domingo do voto, não deve aporrinhar. 

Mas, meu irmão: "o país está mais preocupado com a queda do Palmeiras?"

Positivamente, Lula não gosta de praia. 

SRN

Todos votamos errado


Por Máximo
 Isso é sempre o que pensa quem vota no outro. Irrelevância. Importante é a história, saber o custo da construção do exercício da democracia. Evidente que aí começa outra briga, envolvendo a tradição liberal pra qual a democracia é um valor real, não um meio, que é justo o que pensa o marxismo tático. Seja como for, é o voto instrumento de um espaço de conquista, aberto à disputa. 

SRN