sábado, 30 de julho de 2011

E o Futebol?


 Por Marildo Menegat, doutor em filosofia e professor da Escola de Serviço Social da UFRJ

Qual a necessidade do esporte organizado numa sociedade de massas?  Que tipo de organização social representam os esportes como o futebol? O futebol será eterno, ou tende a ter seu interesse diminuído com a mudança das estruturas sociais e mentais que o produziram? Estas já são algumas questões que possivelmente dariam grandes dores de cabeça à esse extenso clube da “paixão nacional”. Pensar o futebol para além do jogo e das tensões de um campeonato, será que isto mantém a “graça” daquela discussão interminável e sem razão que é fielmente reproduzida todos os dias nos bares e esquinas de nossas casas?
A origem do futebol na Inglaterra, na metade do século passado é bastante ligada às camadas populares. A nobreza e a burguesia monopolizavam os esportes que gozavam de um “certo espírito” de dignidade, isto é, que possuíam um reconhecimento social, com regras e locais definidos para a sua prática. Em geral estes esportes eram caros e inacessíveis para o povo. É neste contexto que o futebol, um tanto diferente do que atualmente se pratica, começa a ser jogado. Sua origem é literalmente a várzea, e suas regras no início bem indefinidas.
    A partir da década de 70 do século XIX, as sociedades da Europa ocidental consolidam os seus modelos de organização e desenvolvimento industrial. Como decorrência deste tipo de sociedade, o mundo rural perde sua importância frente às cidades. São milhares de pessoas que a cada ano emigram para os centros urbanos. Elas trazem uma experiência de vida formada nas fronteiras de pequenos povoados, na labuta pesada da roça em que os símbolos diários de sua vida social são muito limitados. As necessidades do convívio social em meio às multidões de uma cidade são muito mais complexas. A ordem e disciplina no interior de uma fábrica ou escritório não são da mesma qualidade da chefia do sol num roçado.
    O adiamento da satisfação é uma constante no mundo urbano moderno. A vida para o trabalho e seu estresse vão acumulando uma tensão que precisa de territórios civilizados para a sua manifestação. É aqui que a prática esportiva adquire importância. Ela mobiliza o excedente de energia social que não foi utilizado na produção ou foi reprimido pelas normas de organização da sociedade. Desde a torcida até o desportista, todos formam uma comunidade (ou clube?) em que o jogo será uma miniatura de uma guerra, e sem que se atinja de morte o adversário, se procurará vencê-lo o melhor possível. Enquanto este ritual for realizado dentro das regras dos jogos organizados, como o futebol, entre outros, a sociedade vai polindo os instintos mais selvagens e drenando a pulsão para processos criativos, mesmo quando estes representem a agressividade, não realizada de fato, de um jogo.
    O futebol, por exemplo, no início de sua prática, não possuía regras bem definidas, e nem os onze jogadores de cada lado obedeciam a uma tática previamente acertada (esta é uma expressão militar que foi transplantada para a organização do jogo). Hoje em dia nem na mais simples pelada isso acontece! Quando foram elaboradas as primeiras regras internacionais do futebol dois grupos disputaram acirradamente duas alternativas de organização do jogo. Para um deles, o contato corpo a corpo (a falta) entre os adversários não deveria resultar em interrupção da jogada, uma vez que o futebol era um esporte viril, logo, para homens - e agressivos, poderíamos acrescentar. Nesta alternativa a sublimação, isto é, grosseiramente falando, a capacidade de fazer de conta, de criar uma representação para a guerra e sua agressividade e não fazer de cada jogo uma guerra, não é levada muito em conta.
    O grupo da outra alternativa insistia em coibir o jogo violento. Para eles, que afinal, acabaram vencendo o debate, a prática de futebol deveria restringir-se às disputas duras, mas dentro de regras delimitadas que preservassem o adversário. O não cumprimento dessas regras deveria resultar no banimento do atleta infrator.
    A evolução tática do futebol também obedeceu a um certo condicionamento às regras. Já que são onze em campo e o golpe de morte é o gol, é recomendável que se organizem da melhor forma possível para atingir este fim. Porém, o fato decisivo para o surgimento de concepções táticas (que querem dizer, em outras palavras, sem os eufemismos militares, a melhor forma de um grupo organizado se beneficiar das regras estabelecidas), foi a profissionalização do esporte.
    Quando o futebol, no início do século XX, começa a se tornar uma paixão para milhares de pessoas, que passam a se associar a clubes e a acompanhar os primeiros campeonatos, toda uma infra-estrutura se formará às suas costas. No princípio, sem fins lucrativos, mas com o tempo, um dos mais rentosos espetáculos da terra! Quando ainda o que estava em jogo, numa partida de futebol, era a arte, a habilidade e a dignidade dos jogadores e torcedores do clube, toda ousadia tática era pouca, e o espetáculo ganhava em emoção com jogadas que somente os olhos de quem as viu poderão nos dizer. Agora, quando o que está em jogo é o lucro do patrocinador do clube, toda cautela (ou retranca?) é pouco e todo replay de jogada é bem vindo para ampliar a propaganda pendurada nas camisetas. Esta deve ser uma das razões para que o futebol arte (que nada mais era do que uma tática ousada, feita com arte e maestria) desaparecesse dos campos e produzisse uma das mais amplas mudanças de mentalidade desportiva.
    Na era do rádio e das copas do mundo, principalmente depois da segunda metade desse século, o futebol atingiu um público incomensurável. As paixões passaram a ser cuidadosamente cultivadas pelos meios de comunicação e o futebol adquiriu um papel importante de identidade, não mais de pequena comunidade dentro de uma grande cidade, mas de um tipo especial de comunidade, a da grande torcida ligada ao clube pela fronteira das ondas do rádio. As copas fizeram isso com os países, e, em particular o Brasil, que construiu sobre este esporte toda uma representação da sua forma de ser. Como dizia Nelson Rodrigues, era “a pátria de chuteiras”. Com a televisão, nos anos 70 e 80 do século passado, o caráter comercial de espetáculo, com todas suas implicações dentro e fora das quatro linhas do gramado, se intensificaram.
    Uma forma interessante de observarmos isso é compararmos a diferença entre as quatro copas conquistadas pelo Brasil. Enquanto as três primeiras são o coroamento de uma certa ingenuidade tática, em que o talento e a arte de cada jogador sobrepunha-se à tática, na última copa, nos Estados Unidos, a tática afogou o talento e a arte. O futebol mudou, dirão. É verdade, temos de admitir. Porém, devemos nos perguntar, mudou para melhor? A mudança de mentalidade que acima nos referimos teve nas seleções de 90 e 94 o seu auge. Será que o espetáculo (?) deste escrete é mais belo do que os de 58, 62 e 70? E olhando agora para a torcida, o que nela mudou com essa mudança de mentalidade? A que necessidades sociais estas mudanças precisam dar conta?
                       

quinta-feira, 28 de julho de 2011

As Comadres do Gaúcho

Por Máximo




O que importa foram os três pontos.  Desde sempre, desde 83, o pessoal da Ilha do Governador rema, rema e é o que se sabe. Nada mais justo. Agora o seguinte: as comadres do Gaúcho:

"Ronaldinho é o 10 da Copa de 2014."

"Um recado pro Mano, que deveria tê-lo convocado pra Copa América."

Eis a vantagem de ter vivido algum tempo e visto ZICO, LEANDRO, JUNIOR E ADÍLIO. Gaúcho é craque? Posso cometer uma blasfêmia, mas cultivo a ideia de que, pela história do cara, os momentos de genialidade, que lembraram o maneta da Carioca que fazia embaixada com laranja, haviam sido restritos aos dois anos do Barcelona. Na seleção, mesmo em 2002, sem chance. Depois, muito menos. No Flamengo, lampejos aqui e ali e vida que segue.

O que valeu, além dos três pontos, foi a falta. Aquilo foi uma grande charge. Gaúcho sabe que a barreira da Ilha vai pular e toca por baixo. Valeu.

Só pra lembrar: craque o Flamengo faz em casa: Luis Antônio. O moleque arrebentou.

SRN

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Na Gávea Não se Gasta Vela com Cadáver Podre

Por Máximo



Como Rubro-Negro, aos 49 anos, após ter visto Grandes Monstros, ZICO, JUNIOR, LEANDRO, ADÍLIO, e, mesmo, grandes monstros de outros times, impossível ficar indiferente ante monturos como esse sujeito de verde que, até há pouco, cogitou de vestir o MANTO. 

Pouco importa o resultado. Um zero a zero irrelevante diante da pequenez, da covardia, sordidez, da mesquinharia desse, sem chance, meu irmão. 

Gastar vela com cadáver podre.

SRN

sábado, 16 de julho de 2011

Telê, Antônio Cândido e a "Comissão da Verdade"

Por Máximo



Antônio Cândido escreve, logo no primeiro parágrafo do prefácio a "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque, que a despeito de acharmo-nos muito diferentes, à medida da passagem do tempo nos diluímos nas características de nossa época, de modo que o que dizemos não é mero testemunho, mas o registro de uma “visão do mundo, no momento particular do tempo que se deseja evocar.”

Falar de Telê é tirar o tênis, voltar a ser peladeiro de rua. A seleção de 82 era o Brasil que se jogava à rua. Cansados do peso da bota bárbara, os calos de sangue eram abertos em cada esquina, com agulhas nem sempre esterilizadas. No quartel da PE, no início da Gonzaga Bastos, o sangue coagulava-se, calos e crostas ressecados, entregues à ferida.

Jogar descalço numa rua de paralelepípedo era muito melhor do que no campo de “soçaite”, em asfalto abrasivo, que havia naquele quartel.

Cada lançamento, cada tabelinha de um meio-campo formado por Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico. A resposta silenciosa da rua descalça que talvez pensasse  em ideologia que  só pudesse vir armada.

Melhor abandonar as palavras ao inventário de corpos alinhados, disciplinados, abatidos em reverência à ordem que teimava em nos envelhecer. E envelhecer era acumular cadáveres.

Pensávamos a cada letra, a cada chilena, a cada balãozinho, a cada trivela, hoje completamente mortos, uma ideologia que só pudesse vir armada na perversão de uma utopia em sua vontade de não fazer nada, na desfiguração da candura, que hoje soa ainda mais cínica em “Comissões da Verdade”.

Guevara, Debray, Leandro, Júnior, Adílio e Lico, inventores de uma heresia que precisam tornar ao crime. Porque não querem o tipo de vida que segue, que passa como o tempo: rápida, morna, opaca.

Impune.

SRN

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Mestre da Grande Arte da Bola


IBAC PROMOVE EXPOSIÇÃO SOBRE TELÊ SANTANA
 
O IBAC – Instituto Brasileiro de Arte e Cultura, em parceria com a Escola da Cidade – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo promove, a partir do dia 26 de julho, a exposição “Telê Santana -Homenagem ao Mestre”.Na abertura, dia 26 de julho, data de aniversário de Telê, haverá uma mesa redonda, às 19horas, sobre "Futebol Arte", com Juca Kfouri (jornalista), Sócrates (ex-jogador de futebol ecomentarista), André Ribeiro (escritor) e Elifas Andreato (artista gráfico), seguida dolançamento da exposição.
 
A mostra será composta de painéis com imagens de momentos marcantes da vida de Telê
Santana, além de obras de arte em homenagem ao técnico, e de objetos pessoais como, por
exemplo, a camisa nº 9 do Fluminense com a qual ganhou seu primeiro título como jogador.
O evento, que é gratuito, faz parte das homenagens referentes ao Ano Telê Santana,
comemorado em 2011 pelo Instituto, que promove anualmente a celebração de uma
personalidade na sua determinada área de atuação. Em 2010, o IBAC celebrou o ano do
coreógrafo e bailarino Ismael Guiser. Hoje, o Instituto atua nas áreas de Arquitetura, Artes
Plásticas, Cinema, Comunicação, Cultura Popular, Dança, Futebol, Literatura, Memória, Música e
Teatro.
A exposição será lançada, simultaneamente, na cidade de Alto da Divisa, em Minas Gerais. A
mostra integrará a “Copa Telê Santana”, evento em homenagem ao técnico, em que
participarão as Seleções Sub-17 das cidades do Vale do Jequitinhonha (MG).
 
SERVIÇO
Abertura Exposição -- com mesa redonda
• Data: 26 de Julho às 19h
• Para participar da mesa redonda, fazer inscrição até 22/06, pelo e-mail:
angela@ibacbr.com.br
Visitação
• De 27 de Julho a 19 de Agosto (segunda a sábado)
• Horário: segunda a sexta das 10h às 20h / sábados: das 10h às 16h
Local: Escola da Cidade – Rua General Jardim, 65 (próximo ao metrô República)
Informações: (11) 6944-7850 com Angela (angela@ibacbr.com.br) e (11) 3258-8108 com
Sofia -- www.escoladacidade.edu.br / www.ibacbr.com.br


Por Máximo

Recebi um convite difícil de recusar: participar, no dia 26,   em São Paulo, de uma exposição em homenagem ao Mestre da Grande Arte da bola. Pois que Telê não foi senão um grande artista.  Pouco importa que a seleção de 82 não tenha sido campeã, assim como a seleção holandesa em 74. Tanto uma como outra, entretanto, são respectivamente mais lembradas do que as próprias campeãs. No caso de Telê, ademais, a lembrança é maior, permanente, virando história já mesmo ao apito final daquele dia no sarriá. Aplaudido de pé, não apenas por toda a imprensa mundial, mas também por Enzo Bearzot, técnico da Itália que acabara de nos derrotar e que seria campeã daquela copa.

Participarei com dois desenhos, um dos quais já aqui publicado e que segue abaixo.



SRN

domingo, 10 de julho de 2011

quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Mato Era Luxuriante

Por 28



Muito bem escondida, a taça das bolinhas. Do mato, nada. Aliás, muito conveniente na terra da garoa. E do mato aquele fogo fátuo de uma fauna em extinção, lamentavelmente agarrada à taça das bolinhas. Luxuriante.


Um deles ainda tentou, no desespero, agarrar o Gaúcho, derrubando-o na área. Penalti que o juiz não deu. Quem dá a bola no mato é o campeonato. Luxuriante.

A ginga de Negueba não agrada à delicada valsa da fauna, vai no fundo, o corta-luz de Tiago Neves tirando a venda da cabra-cega da marcação, vem o gringo, fim de papo.

1 x 0 foi pouco.

Canja de galinha, de resto, não faz mal a ninguém.

Outra coisa: vice já sabemos a quem cabe.

SRN

sábado, 2 de julho de 2011

RECORDE: Revista de História do Esporte

Por Máximo



A  RECORDE, Revista de História do Esporte, www.sport.ifcs.ufrj.br/recorde, do Laboratório de História do Esporte e lazer do PPGHC da UFRJ, vem com um artigo de Douglas Booth, da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, que trata das abordagens acadêmicas sobre o esporte.

Reproduzo abaixo o resumo porque nele estão as ideias forças que circunscrevem o esporte como objeto acadêmico, a partir dos anos 70. Também serve pra clarear modelos, úteis mesmo pra quem não quer saber de esporte, muito menos de futebol. A História Social x História Cultural, quase como um Fla x flu. Pode-se dizer, com base no artigo, que  o historiador que pensa, por exemplo, o futebol dentro do modelo da História Social se preocupa com identidade nacional, acontecimentos de um passado que serviu pra construir o presente. Já o historiador pós-moderno vê o passado apenas como uma construção. Lembrei-me de novo das aulas de Historiografia I da nossa professora Beatriz, particularmente no exemplo que nos deu a respeito do holocausto. Não se pode negá-lo ou mesmo dizer que se trata de uma construção narrativa. Abaixo o autor fala de acomodação como um espaço de intersecção. Deve ser a aplicação no esporte do exemplo dado pela Beatriz. Há no futebol uma polêmica envolvendo Gilberto Freyre, Mario Filho e o Estado Novo. O pau come entre os acadêmicos que se situam nesses campos distintos. Os pós-modernos dizem que o futebol foi usado por Freyre e Mário Filho  como um discurso a serviço de uma construção identitária autoritária e excludente. Já os da História Social dizem que se trata de uma correspondência entre acontecimento e narrativa. 
Não é à toa que o futebol nada tem de alienante.

SRN

 

História do Esporte: Abordagens em Mutação 

Por Douglas Booth

Resumo

Trinta anos após sua concepção e desenvolvimento como um ramo da história social, a história do esporte acadêmica está em estado de fluxo e, cada vez mais, é influenciada por um paradigma cultural inspirado no pós-modernismo. Neste artigo, examino a maneira como emergem, na história do esporte, as apropriações modernas da história social e as apropriações pós-modernas da história cultural. Enquanto a história social baseia-se em ideias sobre emancipação, verdades empíricas e o passado como uma fundação para o presente, a história cultural abraça uma forma de pensamento explicitamente autoconsciente e reflexiva, que relança a história como um discurso construído sobre o passado. Assim como examinar as características conceituais, ideológicas, narratológicas e semiológicas tanto da história social quanto da cultural, identifico áreas de acomodação entre as duas abordagens e discuto o potencial para esta acomodação florescer em histórias nas quais autores abertamente reflitam sobre seu trabalho e seus formatos e métodos, e revelem seus objetivos ideológicos e políticos, assim como as limitações de suas narrativas.

Palavras-chave: história social; história cultural; história modernista; história pós-modernista.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Rua Lanceta

Por Máximo



Ao final da década de 70, havia em Vila isabel um moleque Rubro-Negro  que insistia em jogar pelada descalço na rua de paralelepípedo. Tinha o chamado "pé de moça", na gíria da bola. Criava calos de sangue, mas não ligava, pois o pai, à noite, esquentava uma agulha no fogão, furava-lhe uma a uma as bolhas e deixava uma linha em cada uma delas como um dreno. O problema pro moleque Rubro-Negro é que tinha de ficar o dia seguinte sem poder jogar bola nem com "all latex", o tênis da época muito usado em futebol de salão pela leveza, como se se estivesse, de fato, descalço.

Outro problema aí também era ir "só pra ver". O moleque Rubro-Negro encostado no poste vendo os outros, a bola quicando, às vezes mesmo ela lhe chegava perto e ele dava um toque devolvendo-a à pelada. Não resistia:

"A próxima é minha."

A pele fraca do calo com dreno era estourada e novamente a operação com o pai se repetia, sempre à noite. O pai não gostava, dizia "bemfeito", mas era o filho, novamente a agulha quente, linha como dreno e vida que segue.

Um dia o moleque Rubro-Negro achou que aporrinhava e não mostrou ao pai os pés estourados. No quarto, de madrugada, a dor insuportável e o moleque calado, não querendo acordar o velho que saía cedo pro açougue. Conseguiu dormir, mas, quando acordou, a dor era tanta que não dava sequer pra ir pra escola. O pai teve de vir e, ao ver o estado do pés do moleque Rubro-Negro, achou melhor levá-lo à uma clínica, ali perto, na Teodoro da Silva com Gonzaga Bastos. O moleque Rubro-Negro havia infeccionado os calos e precisava "lancetá-los". O moleque Rubro-Negro nunca mais se esqueceu do que o médico disse:

"Tem de lancetar. Está infeccionado."

Lancetar era meter o bisturi à sangue frio, pois a anestesia, naquela situação, era inútil.

Lembro-me da história deste moleque Rubro-Negro da zona norte carioca e faço a relação com Certeau, em que leio, em "A Escrita da História", o tópico "A História Como Mito", a praça grega e as ruas árabes. É vermelha, como nos calos dos pés daquele moleque Rubro-Negro, a cor destas praça e ruas. O povo resolveu "lancetá-las", expondo a história como mito, de que fala Certeau, como a história que não investiga o não-dito, mas apenas reproduz a tradição, uma lenda vulgarizada.

Pode-se, então, dizer que a tradição é uma espécia de narrativa consensual, por isso muito próxima do mito, na expressão da consciência e do desejo? 

Consciência e desejo "lancetados" no calo dos pés do povo que resolve tomar a própria vida sem pedir licença?

SRN