sábado, 31 de março de 2012

Comemorar o quê, Cara-Pálida?

Por Tadeu dos Santos



E jovens militantes eram alvejados com gás de pimenta e a seguir empurrados pelas forças de repressão. Tudo aquilo me remetia à missa em memória de Edson Luiz, primeiro estudante morto pela Ditadura, em que a cavalaria cercara a igreja da Candelária e a seguir  massacrou aqueles que tentaram sair.  Já àquela época a Ditadura Militar  deixava bem claro que a memória dos mortos não seria respeitada. Subindo um pouco o tom, viriam mais tarde a negar também o direito ao sepultamento das vítimas.

Quase 50 anos se passaram e o quadro não mudou. Vez mais a voz dissonante é calada. Homens fardados batem e jovens apanham. Até quando?

No interior do Clube Militar, os militares comemoravam e um tanto quanto perplexo e embasbacado exteriorizo a pergunta que clama por resposta: comemoravam o quê?

Quiçá estejam a comemorar a porosidade de nossas fronteiras, há tempos franqueadas às armas e drogas. É sabido o dia e hora em que os carregamentos chegam. A atribuição é do Exército, mas por ignoradas razões não é cuidada a contento. Também pudera, com tanta comemoração, tantos comes e bebes e quem é que vai ter tempo e disposição pra essa coisa chata consistente em vigiar fronteiras.

Talvezos folguedos dirijam-se à nossa exitosa campanha na Guerra doParaguai. É bem verdade que Julio José Chiavenatto (A Guerra doParaguai – Genocídio Americano) assegura que Brasil, Uruguai e Argentina uniram-se pra derrubar o único governo que se opunha à dominação britânica no continente. Já ao término da guerra, as crianças paraguaias foram mandadas ao campo de batalha e lá foram devidamente massacradas por nosso “glorioso exército”.

No mesmo livro Chiavenatto assevera que Duque de Caxias (O Pacificador – pois sim) lançou corpos pútridos de soldados Paraguaios nas águas que se destinavam a saciar a sede da população, envenenando-a. Seria, pois, o patrono do “nosso” exército, um dos precursores da guerra bacteriológica?

Em vista dos fatos narrados a inquietante pergunta prossegue pugnando por resposta: Seria aquela guerra de tão triste memória o  motivo da festança?

Estariama comemorar o elastecimento de nossa pauta de exportação? Sim,temos nossos direitos aos royalties da tortura praticada em abugraigh . Na realidade, a técnica é 100% Tupiniquim. Sim, aeletrocução (a da foto do Iraquiano encapuzado cheio de fios),foi desenvolvida por nossos nobres militares na guerra que eles travaram contra os 'estudantes comunistas' na década de 60.

Não.Não deve ser essa a razão.

Destinar-se-ia a pajelança em memória da Transamazônica construída às expensas da floresta e mais tarde devolvida à mesma? Um monumento à mesmice, ao andar em círculo e ao desperdício de dinheiro público. Seria um tributo ao Projeto Jari ou trocavam reminiscências da finada Serra Pelada? Talvez até um certo regozijo pela falência do Loyd Brasileiro. São tantas glórias, tantos motivos pra festejos. Que fico titubeante diante dos balões coloridos, da algazarra e de todo aquele alarido.

Estariam a remorar as heróicas caçadas de escravos fugidos? Ah! Como davam trabalho aqueles mestres de capoeira. Jogavam com lâminas presas entre os dedos (os únicos cuja bravura foi destacada pela crônica Paraguaia).

-   Mas fizemos o nosso trabalho. Já sabíamos como e a quem servir – dizia um torturador entre uma e outra garfada de bolo.

Estariam a festejar  o combate aos levantes que se insurgiam contra a dominação colonial?  Foi nesse período que Caxias construiu a fama de pacificador.

Não.Os abraços , afagos e mimos dão sinais de que a coisa é maior. Bem maior.

Talvez a data louvada seja o 31 de março. Marco do cerceio à liberdade de expressão, à matança de jovens, à tortura, às prisões arbitrárias, ao fim da pluralidade.

Na realidade, a pergunta talvez fique sem resposta ou quem sabe a resposta esteja com aquele jovem de 18 anos, obrigado a pernoitar na fila pra conseguir alistar-se e servir à pátria. Já com o dia claro, uma quantidade ínfima de senhas é distribuída e ele retorna à casa numa dessas paragens bem distantes. Vai cansado, perdeu a noite anterior e perderá o resto do dia. Prepara-se para o Enem e essa rotina o distancia de seus objetivos.

Talvez seja obrigado a prestar o serviço militar. Não tem qualquer afinidade com o exército. Na realidade, sente um profundo desprezo pela instituição.

Vejo o militante vitimado pelo gás de pimenta com os olhos em chamas, ouço a história do jovem vestibulando, rememoro passagens do nosso“glorioso” exército e me pergunto se nossa passívidade e dormência terão fim algum dia.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Granja Privada

Por Tadeu dos Santos



Ando cá desconfiado de que esteja o Ronaldinho Gaúcho a pretender usucapir o lado esquerdo do ataque rubro-negro. Passam-se os jogos e vejo-o por ali um tanto quanto sorumbático, os pés presos ao chão, o olhar disperso, as olheiras salientes e um ar de dá cá o meu e o resto que se lasque.

Saliento que ele reúne os requisitos à consecução da supramencionada pretensão. A posse é mansa e certamente os impostos devem estar sendo pagos em dia.

Os comentaristas esportivos da CBN são unânimes em afirmar que ele não treina ao longo da semana. Quiçá esteja diariamente indo ao Engenhão e lá chegando, joga um colchonete ao chão e prossegue por ali, infalível, na posse mansa e tranquila de seu quinhão de terra, situado, como já disse, ali pelo lado esquerdo da intermediária.

Num futuro não muito distante (assim espero) e aquele setor do campo receberá a sua merecida placa. E lá estará escrito: “Cantinho do Ronaldinho – ele adorava esse lugar”. Quem sabe façam até um cercadinho e lá ponham uma segunda placa: “propriedade privada”.E as manchetes dirão: “Ronaldinho estuda a possibilidade de fazer puxadinho na área adquirida via usucapião”.

Não vou falar do passado do atleta, até mesmo porque o mesmo ainda não encerrou (formalmente) a carreira e assim caberia ao próprio defendê-lo da única maneira possível, ou seja, jogando futebol.

Vou apenas falar do meu desapontamento enquanto torcedor do Clube de Regatas do Flamengo.

Reinventamos a regra e assim passamos a jogar com dez e, neste passo, é bom que não esqueçamos do quanto é pífia a administração do clube, ao admitir e ainda defender esse estado de coisas.  O que falta para por cabo ao contrato mantido com o atleta. Cifras? Questões de ordem patrimonial? Multa rescisória?

Não me meterei por essas searas, eis que se manifesta aqui, apenas e tão somente, a voz do torcedor. Não posso, todavia, deixar que passe em branco a oportunidade de lançar um ligeiro lembrete à “administração” do clube, a saber: nosso patrimônio está restrito à maior (e mais bonita) torcida do Brasil e ao nosso passado de glórias, nossa memória.

Urge lembrar que o manto sagrado já se fez vestimenta em Zico, Zizinho,Geraldo, Dida, Dr. Rubens, Leandro, Júnior, Dequinha, Biguá, Bria,Jaime, Valido, Adílio, Andrade, Aldair, dentre tantos outros.

Nesses tempos em que o sujeito mal e chega e já se considera titular do direito de sentar na poltrona da janela, fica o alerta: “...respeite quem pode chegar onde a gente chegou... Também somos linha de frentede toda essa história ... ”.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Conto do Vigário

Millôres

Por Tadeu dos Santos


...remete-me ao Millôr Fernandes.

Morou no Méier e também nas proximidades de Pilares, mais precisamente na rua Guarabú.  Li num de seus textos que ele sempre descia a Avenida João Ribeiro caminhando até chegar à rua acima mencionada, bem ali próxima ao Engenho da Rainha. Jornalista de sucesso e um dos homens mais cultos do Brasil deveria diuturnamente ser colocado como exemplo a esses jovens que mesmo sem ter consciência tentam seguir-lhe os passos.

Millôr que, como sabido, se diz um homem livre das amarras de toda e qualquer ideologia, mandou numa dada ocasião um recado para destinatários fartamente conhecidos. A mensagem era curta e grossa e vazada nos seguintes termos: - Gostaria de pedir a todos aqueles que fazem propaganda para bancos que tomam dinheiro de velhinhos aposentados que jamais digam por aí que são meus amigos...”.

O trecho acima, claro, foi escrito num outro contexto, mas define a contento os traços que marcaram a trajetória deste ser cosmopolita.

Vivemosa era da Especialização em todos os setores profissionais e no campo jornalístico a coisa não se passa diferentemente. E tome jornalista especializado em Política,  Economia,  Relações Internacionais,  Cultura,  Saúde e o mais.

Millôr,ao contrário, tinha um conhecimento enciclopédico. Poliglota, escritor de sucesso e excelente tradutor.

No entanto, não era apenas o vasto saber que o extremava dos demais.

Num tempo em que a partidarização alcançou  as redações de jornais, revistas, rádio e televisão e que findam por produzir revistas e jornais que se arvoram em fiéis defensoras do liberalismo econômico por um lado, e outras tantas que se fazem defensoras do crescimento exacerbado do Estado por outro.

Em meio a essa peleja em que os fatos são torcidos e retorcidos para dar sustentação aos mais escusos interesses, padece o bom jornalismo e sofre o leitor, que, na verdade, não lê jornal ou revistas, mas sim, convenhamos, tenta apenas escapar das arapucas postas nas entrelinhas onde os fatos são diuturnamente massacrados.

Pois em meio a tudo isso Millôr seguia incólume a essas injunções.Mantinha-se fiel à sua máxima de que livre-pensar é só pensar.Soube como poucos colocar sua enorme inteligência a serviço de suas mais íntimas convicções.

Perceba-seo quanto é desimportante aferir o erro ou acerto das opiniões porele exteriorizadas. Celebra-se aqui a independência que, emderradeira análise, é traço definidor do único jornalismo que sepode aceitar.

LuizFernando Veríssimo afirmou que a morte de Millôr Fernandes (ocorrida em 27 de março de 2012) deixou o país um pouco maisburro. É verdade.  

quarta-feira, 28 de março de 2012

Valeu, Meu Irmão


"Meia-noite em Paris"

Por Tadeu dos Santos

Com vistas à disputa do Campeonato Carioca de 1971, o Olaria, devidamente patrocinado por uma loja de eletrodomésticos, montou um time cuja escalação era: Pedro Paulo; Haroldo, Miguel, Altivo e Alfinete; Afonsinho e Roberto Pinto; Marco Antônio, Osnir, Luís Carlos e Antoninho.

Era um tempo em que os volantes jogavam (e como!!!). Talvez o argumento soe desarrazoado e exagerado, mas Roberto Pinto e Afonsinho seriam hoje titulares da seleção brasileira.

Afonsinho, como sabemos, era acadêmico de Medicina e ex-jogador do Botafogo. Ali (em General Severiano) não encontrou um ambiente muito receptivo às suas ideias de esquerda demasiadamente arrojadas para os anos de chumbo que vivíamos. A gota d'água, porém, deu-se com a intolerância dos dirigentes alvinegros em relação às suas longas madeixas. Malas feitas, o craque foi ter à rua Bariri e ali, devidamente acompanhado por Roberto Pinto, comandou um time que primava pelo maravilhoso toque de bola.

Em 24 de abril de 1971, enfrentaram-se Botafogo e Olaria. O time da rua Bariri dominou o jogo por encantadores 90 minutos. Como dizia o saudoso Waldir Amaral o peixe não foi ter às redes e o placar ficou mesmo em 0 X 0.

Íamos já ali pela marca dos 40 minutos do segundo tempo, quando o Olaria pôs o Botafogo na roda. A bola ia de pé em pé e os chorões , ou seja, atletas do Alvinegro não logrando êxito na tomada da bola, passaram a aplaudir os adversários. Afonsinho, cuja verve era, já aquela altura, afiadíssima, limitou-se a dizer: vocês estão certos. Quem sabe joga, quem não sabe bate palmas.

E o suposto time pequeno prosseguiu dando olé no pretenso grande (cujo ataque, só pra constar era formado por Zequinha, Jairzinho, Roberto e Paulo Cesar) até que viesse a última volta do ponteiro.

Ainda pra esta temporada o time montado pelo América constituía-se de: Jonas, Paulo César, Tião, Mareco e Zé Carlos; Badeco e Tarciso; Tadeu, Jeremias, Edu e Sarão.

Talvez esteja a perecer da denominada Síndrome da Era Dourada de que nos fala Woody Allen no maravilhoso “Meia Noite em Paris”, mas não titubeio em afirmar que esse time da rua Campos Salles seria hoje campeão estadual.

Na sequência esse elenco seria acrescido de Alex, Álvaro, Flecha, Luizinho e Bráulio.

Hoje falamos nos quatro grandes (como o adjetivo grande se apequenou, não?) Nos idos dos 60 e 70 do século passado tínhamos no mínimo 6 times com reais condições de lutar pelo título estadual. Em 1971, com o fantástico Olaria, a soma chegava a 7.

Confiram na Internet as histórias de América e do Bangu.

Vejam os títulos conquistados e os inúmeros bons jogadores por eles revelados (Dé, Aladim, Parada, Bianchini, Ubirajara, Fidélis, Mário Tito, Paulo Borges, Zózimo e Zizinho, por exemplo, foram jogadores do Bangu).

Hoje, como sempre nos lembra o Máximo, operou-se a mercantilização do futebol e o jogador-mercadoria precisa circular e dar lucro num curtíssimo espaço de tempo. Surgem numa temporada e já na seguinte desfilam por campos europeus.

No mesmo passo, transformaram os chamados “times pequenos” em abrigo de jogadores já entrados em anos (que expressão antiga).

A aterradora fórmula consistente em reunir a falta de renovação à senilidade dá ensejo a esse quadro desanimador em que tudo o que se vê são estádios de futebol mais vazios do que salas de cinema (disse-o um repórter da CBN).

Dizíamos ao início que o time montado pelo Olaria em 1971 era patrocinado por uma loja de eletrodomésticos. Nos tempos que seguem somos membros do BRIC e conforme declaração de nossa impoluta presidente (caráter sem jaça, também, eu suponho) estamos sendo vitimados por um tsunami financeiro.

Ora, com quadro tão favorável porque escasseiam recursos que viabilizem os chamados pequenos (não falo de recursos públicos, que isso fique bem claro). Onde estão os patrocinadores? Há toda uma estrutura a ser montada. Há jogadores a revelar. Sua marca vai aparecer na tela do Plim-Plim numa dessas tardes dominicais. Vale a pena!!!

Enquanto isso, prosseguimos na tediosa rotina travada entre os 4 grandes. Acaso surja algum inesperado pequeno a intrometer-se nessa festa de bacanas e logo um homem de negras vestes o coloca em seu devido lugar (conforme decisão do Carioca de 2005 – Fluminense x Volta Redonda).

Lembro de um tempo em que a preliminar do jogo principal reunia as respectivas equipes juvenis. A “iluminação” antiga permitia que víssemos o acender dos cigarros no lado oposto da arquibancada. Atualmente a preliminar é o próprio campeonato estadual. Um marasmo tedioso (perdoem a redundância) que, apenas e tão somente, prepara os espíritos para o Brasileirão.

E fica o registro de que o supramencionado campeonato de 1971 foi decidido por Fluminense x Botafogo. O empate favorecia o Alvinegro. A vitória, todavia, coube ao tricolor. O gol de Lula foi marcado aos 42 minutos do 2º tempo, após falta flagrante de Marco Antônio em Ubirajara. Como visto, a única novidade alvissareira ficou mesmo por conta do Olaria. No mais...


Colo de Mãe

Por Tadeu dos Santos

Dia desses vi ressuscitada num debate sobre futebol a conhecida discussão acerca da polarização do  futebol-arte x futebol-resultado. Lá pelas tantas, um dos comentaristas; paulista, decerto, se não pelas ideias fora de lugar, certamente pelo indisfarçável sotaque, dizia que já não há que se extremar as duas concepções e que à expressão futebol-arte preferia esta que hodiernamente circula por aí, ou seja, futebol bem jogado.

Há ideias, frases, concepções e conceitos que ganham ares de verdade, mas que não resistem a cinco minutos de acurada reflexão.

Futebol bem jogado é uma expressão ampla. Parece colo de mãe que sempre acha lugar para o filho tardio. Uma sólida retranca vista pelos olhos daqueles que entendem que o futebol é uma mera operação aritmética consistente em somar pontos e levantar taças é, a toda evidência, um futebol bem jogado. Pergunte a qualquer torcedor se aquele incessante alçar bolas na área que, ao fim e ao cabo, resultou em título, não era um futebol bem jogado. Orra meu se não era.

Pretender conferir ao futebol pinceladas artísticas parece se haver tornado pecado capital cuja expiação é ficar 24 horas de frente pro telão assistindo ao Felippe Melo “jogar”. Entende-se também que futebol-arte e futebol-resultado sejam noções mutuamente excludentes.

Não são.

O lúdico, a brincadeira e as gargalhadas que Uri Gheller dava sempre que driblava os laterais operam-se lado a lado e complementarmente aos gols. Ganhamos cinco títulos mundiais: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 e apenas durante a “conquista” de 1994 jogamos à moda alemã.Todavia, não encaramos esse “evento” como uma mera exceção à regra. Não! 1994 passou a ser o paradigma. O exemplo a ser copiado para todo o sempre. É como se dissessem: Não corramos riscos, joguemos  no erro do adversário e coloquemos volantes em todos os setores do campo.

Mas isso não nos representa. Somos Dr. Rubens, Dequinha, Geraldo, Didi, Ipojucã, Nei Conceição, Ronaldinho Gaúcho, Garrincha, Nílton Santos, Pelé, Paulo Cesar Caju, Rivelino, Zico, Leandro e tantos outros que reinventaram essa coisa de lançar a bola à rede.

Futebol é muito mais do que isso. É a folha seca de Didi, é  a elegância sutil do Falcão, é o andar por sobre a bola do Geraldo, é o pé esquerdo de Rivelino e o direito de Pelé,  é a ginga do Garrincha,é o escanteio batido de letra por Nílton Santos e o acertar no que não vê de Ronaldinho Gaúcho.

Faça a experiência. Tente retirar tudo isso e no seu lugar deixe apenas e tão somente, o gol e veja o caldo minguado e pouco degustável que restará.

Quiçá os adeptos do futebol bem jogado sejam profundos estudiosos da linguística e por esta razão são sabedores de que o caminho mais curto para dar fim a algo é trocar-lhe o nome.  Creem certamente que banindo dos dicionários a expressão futebol-arte, ato contínuo ele sumirá dos campos e teremos então uma modalidade esportiva consistente em fazer passar a bola pelo interior de um retângulo.

Mas como já dissemos não há edifício teórico que resista a um fato que lhe balance as estruturas. Rivaldo levanta a bola do chão e dá um chapéu capaz de relegar o gol a mais relés posição. Há tempos não via aquele tipo de lençol. Uma beleza.

Rivaldo é um resistente. E nós também. 

domingo, 25 de março de 2012

Membro do Comitê Organizador da Copa/2014

Comitê Organizador da Copa/2014

2014? Mas, hein?

Irmão Jairo

Por Tadeu dos Santos



O, digamos assim, comunicado, quiçá lembrete  pode ser encontrado nas proximidades do campo de treinamento do clube mais querido do Brasil. Certamente devem todos imaginar que tal lembrete/comunicado seja direcionado às divisões de base do Flamengo. Mas não é este o caso. A exortação é dirigida aos profissionais.

De igual maneira, todos sabem que a folha de pagamento bate às nuvens. Ronaldinho Gaúcho, Wagner Love, Felipe e Leo Moura são conhecidos milionários do mundo da bola.

Há algo de muito errado em um clube em que uma obrigação elementar, conhecida sobejamente de qualquer menino das divisões de base,  necessite ser atirada à cara dos profissionais.

Impõe-se à conclusão o fato de que o ambiente publicamente desorganizado, prende-se de maneira umbilical à desorganização do Departamento de futebol do clube.

Ultrapassada a evidência inerente aos fatos, urge que respondamos à questão: o que afinal pretendia o Sr. Manoel Jairo dos Santos ao tornar público e oficial algo que até mesmo a mais jovem das criaturas está farta de saber?

Seria algo do tipo: - Olha, fiz a minha parte. Fiz o óbvio e pedi aos jogadores que fossem atletas. Assim, se Ronaldinho e Cia insistem em perambular pelas madrugas e nunca, never, jamais utilizem a cama para sua finalidade primeva pouco se me dá. Vejam!!! Cumpri o meu dever e neste momento lavo as mãos. Dá-me cá o sabonete.

O mais grave é que toda a realidade circundante nos leva a crer que a mensagem tem endereço certo, mas que falta coragem ao bravo diretor de futebol para dar nome aos bois. Torna-se, pois, genérico o que,na realidade, é específico. E assim, como não ouso dizer: olha Ronaldinho tome tino, dirijo uma mensagem a todo o grupo na esperança de que o 10 a leia e diga: Chê!!! Será que esse negócio é comigo?

São, sem meias palavras, cenas de um amadorismo vergonhoso.

Na realidade, espera-se bem mais de um Gerente de Futebol e convenhamos que se houvesse o Sr. Manoel Jairo dos Santos dado cabo de seus afazeres, o tacanho comunicado/lembrete jamais teria dado o ar da graça.    

O Flamengo e sua maravilhosa torcida merecem mais do que demonstrações pueris e amadorísticas. Somos grandes e idêntica deve ser a estatura daqueles que por aqui trabalham. 

sábado, 24 de março de 2012

Coração Satânico

Por Máximo



Meu amigo de infância, o grande 28, das peladas aqui de uma rua de Vila Isabel, sempre me sacaneava quando ameaçava vir com alguma chorumela. Diabético e, por isso, o descuido levado ao paroxismo, terminara amputado a perna direita;  parecia, entretanto, indiferente, ou, ao menos, usando o humor pra deslocar o pavor ao pendurar a própria muleta num prego na parede oposto ao sofá onde passava a maior parte do tempo lendo e vendo o Flamengo. O trajeto em busca da muleta era uma espécie de argumento à indispensável ausência de comiseração. A senha ou "profilaxia" vinha, segundo pontificava, do 433 (Praça Sete_Leblon):

"Fale ao motorista somente o indispensável."

Quem o conhecia sabia que, de fato, tudo era papo, menos a chorumela pieguas do amputado.

Certo, 28 nunca lera Ferreira Gullar, para quem a dor, quando insuportável, paraliza. Penso que a vantagem da palavra escrita é justo poder ver materializado o que antes permanecia inefável, embora incômodo.

"A palavra foi feita pra dizer, não pra brilhar feito ouro falso." (Graciliano Ramos)

Desenho não é à toa. Este texto parece um parafuso de rosca infinita. Não trava. É que uma tristeza funda às vezes parece vir não do amigo 28, muito menos do monstro sagrado da literatura nacional, mas da 28, de onde vem o apelido do próprio, no passo de Martinho, "bem devagar, devagar, devarinho".

Comecei a desenhar este "Chico Anísio".

O cotovelo impõe a autonomia - Picasso, de resto, como sempre, já asseverara - e a foto de Chico Anísio que utilizo à medida que desenho - as canetas bic preta, azul e vermelha, a tridente (0.3) a nanquim, o grafite raspado ao estilete - sugere uma deformação.

Há na foto um caminho que me surpreende. Percebo na caricatura de Chico uma expressão que, ao contrário do brasileiro do panegírico, do jornal que vende, da televisão que enxagua a sala, o brasileiro de Sérgio Buarque, cordial, do coração, mas do coração satânico, perverso, os olhos em sofreguidão de espiral para a ruptura. 

28 tem razão:

"Máximo, meu irmão, deixa o texto com o Tadeu."

SRN 

Caboverdeana

sexta-feira, 23 de março de 2012

Cachaça ISO 9000

Por Tadeu dos Santos


E eis que a Fifa insiste em que conste na Lei Geral da Copa que sim, haveremos todos de encher a cara durante os jogos que então serão realizados.

Essa determinação contraria uma tradição lentamente construída.

De fato, os chamados bebedores chegavam cedo e ficavam ali pelos bares situados nas cercanias do Maracanã. Bebia, saliente-se, bem pouco.

À saída, mais algumas talagadas desciam pela goela. Aí a quantidade fazia-se mais farta. Bebia-se então pelo regozijo da vitória ou pela premente necessidade do esquecimento.

Em tudo e por tudo, éramos, por exemplo, diferentes dos ingleses.

Na terra de Darwin e Chaplin a garapa fazia-se onipresente. Alguns, decerto, dirão que tudo devia-se ao determinismo climático. Com o frio inclemente, bebia-se buscando o esquentamento.

Creio,porém, que não é essa a melhor explicação.

O calor fustigante que assola a terra de Machado e Euclides também poderia levar-nos a entornar uns bons copos de cerveja. Ou não?

Mas vejam, por lá tudo o que se via eram  bolas alçadas à área adversária  por longos (quase eternos) 90 minutos. E, claro, surgiram bons cruzadores e excelentes cabeceadores naquela coisa que eles insistiam em denominar Futebol. Justifica-se assim o exacerbado consumo etílico. A cada bola levantada, a cada tufo de grama lançado ao espaço, um longo gole descia na tentativa de aplacar as angústias do espírito.

Já nesses sítios desfilavam Zizinho, Zico, Geraldo, Pelé, Rivelino, Dirceu lopes, Garrincha e tantos outros.

O culto prestado à deusa Bola exigia que estivéssemos lúcidos. Tudoo que ali acontecesse deveria ser visto e retido naquele tugúrio do cérebro onde ficam armazenadas as pérolas, o que de mais belo vimo sao longo de nossas existências.  

Hoje, contudo, vivemos uma realidade deveras diferente. Nossos gramados andam infestados de volantes. Lembro de um tempo em que cada clube tinha um Paulo Henrique Ganso. E a bola era cativa da magia de Rivelino, Dirceu Lopes, Zico, Geraldo, Ademir da Guia, Edu, Bráulio,Roberto Pinto, Pita, Dicá, Alex, Didi, Nei Conceição, Paulo Cesar, Gérson, Rivaldo e outros. E eram eles os donos de seus respectivos times.

Um dia, em plena Copa do Mundo, Bebeto foi desancado por Dunga e naquela algo “singela” e despercebida cena ficou patente (pra quem quisesse ver) que o time era de Dunga e só dele. Mudamos o paradigma e não percebemos. O diálogo que estava por trás daquela insólita cena deu-se mais ou menos assim:

"Pouco importa se sabes jogar... Sou o líder... Dou carrinho e me entrego ao time. E tu? O que fazes? Jogas bem, é craque... E daí?"

Desde então o dono do time, outrora o sujeito íntimo da bola, cedeu espaço ao cara compromissado com o resultado. Se em meio a tudo aquilo a bola insistisse em  lhe dedicar o mais explícito desprezo,  tanto pior. No futuro ela seria mascada, pisada, maltratada e humilhada. Urge, aliás, a elaboração de uma lei que desça sobre esse artefato, que em tempos idos era de couro, algum tipo de proteção. Uma Maria da Bola, ou algo parecido.

E tudo isso pra concluir que talvez os homens da Fifa tenham razão.Talvez haja chegado o temido dia em que iremos ter à arquibancada empunhando copos prenhes de cerveja. Dar-se-á então a infeliz coincidência entre os ditames dos negócios capitaneados pela  FIFA e a realidade do futebol praticado por estes sítios.

Cambaleantes e, já à descida da rampa que dá pra passarela da UERJ, já não seremos sabedores do placar ou mesmo de quem afinal jogou aquilo que nos bons tempos chamávamos de futebol.

Bozo de Gramacho Quer Cachoeira no Lugar do Lixão

DEM

Sísifo

quinta-feira, 22 de março de 2012

Bebê Envergonhado

Por Tadeu dos Santos



Vejo e revejo a indignação dos jogadores do chorão complexado em relação ao jogador do 13 da Paraíba Léo Rocha e confesso-me inteiramente estupefato.

O meia foi admoestado por todos os chorões que, dedo em riste,  diziam:

Isso lá é coisa que se tente fazer. E ai de você se desse certo. É preciso respeito. Ponha-se no seu lugar.

Ora, falha-me a memória ou os chorões entraram em regozijo quando um deseus estrangeiros converteu penalti semelhante em plena Copa doMundo? Também não teriam ficado extasiados quando o mesmoestrangeiro em plena decisão do campeonato fez idêntica cobrançaem face do Mais Querido do Brasil?

Engano-me ou estão a nos esfregar à cara que os “grandes” e apenas e tão somente eles tem direito a esse tipo de cobrança? Aos pequenos estáinteiramente vedado o privilégio da “cavadinha”?

Quanta falta de desportividade! Quanta falta de bom humor!

E isso vindo do time que teve em suam fileiras o maior driblador da história do futebol brasileiro.

Quanta falta de memória! Quanta falta de bom senso!

Vejo e revejo isso e a seguir espio a surra aplicada por dois marginais em um rapaz negro. A razão? - Ele é negro.

Vejo a covardia praticada contra um descendente de orientais num escola em São Paulo. A razão? - Ele tinha os olhos puxadinhos.

Vivemos tempos de explícita intolerância em que nossa ação ou omissão nos torna  herdeiros diretos do Fascismo.

Celebremos a diferença. É bom e ademais, convenhamos, não temos outra alternativa. 

Moça Dormindo na UERJ

quarta-feira, 21 de março de 2012

"Deus Não tinha Estilo"

"Qual a semelhança entre um jacaré e um elefante?"

Habemus Papam

Por Andara Cansado



Outro dia minha mulher recebeu ao celular um comunicado convocando-me para emprego (é que não tenho celular e uso o dela pra registro de currículo). Embora ela tenha perguntado, nada disseram, a não ser que eu teria de ligar e marcar a "entrevista". Como despejamos meu currículo a cada fim de semana, calculamos que deveria ser alguma resposta. Pois muito bem:

Numa rua da cidade, em uma daquelas caixas de vidro, perto do Paço, octagésimo nono andar: "Fuck You Groups Look Inside.com".

Chego, preencho a ficha, espero. Continuo a esperar, mais um pouco, mais um pouco, a espera continua, até que aparece uma moça que não seria bonita não fosse a pausterização que a tornava a expressão humana daquele ambiente excessivamente branco, polido, asséptico, com diplomas de "honra ao mérito" pendurados pela parede. Surpreendeu-me uma "comenda" em especial, concedida pela "organização de parlamentares brasileiros". O tal "Fuck You Groups Look Inside.com", ao que parecia, estava na "ponta do mundo corporativo". De fato, na saleta espremida, a moça transbordou, confusamente (talvez porque me achasse burro e intencionasse me impressionar) "conceitos" e "categorias" de board e mannager, mannager e board, mais uma porrada de termos estrangeiros que queriam me fazer ter a certeza de que eu necessitava de um "gerenciamento de carreira porque o seu (meu) currículo é muito bom". Já comecei a perceber o negócio e fiquei a ver se filava um pedaço da coxa da moça, pois certamente a sedução também deveria fazer parte do negócio.

Em suma: por 6 parcelas de 350,00 a "Fuck You Groups Look Inside.com", cuja tradução, se olharmos bem dentro dos fatos e evitarmos expressões de baixo calão, poderia ser, por aproximação, "Conto do Vigário em Grupo".

 Pois é isto:

A ""Fuck You Groups Look Inside.com" me colocaria até na Casa Branca.

sábado, 17 de março de 2012

2001 de Kubrick

Por Tadeu dos Santos



Dia desses uma competentíssima diretora de uma escola de ensino fundamental da rede pública, situada junto à comunidade do Jacaré, dizia-me de sua hercúlea dificuldade no sentido de pedir aos alunos que não se atracassem durante todo o recreio. Relatou-me também que todo o seu esforço tem sido inteiramente em vão.

Prosseguiu contando que a uma certa altura fizera uma análise um pouco maisdemorada chegando a questionar o posicionamento que até então assumira. Afinal como proibir que uma criança se lance à prática do “esporte” que mais cresce no mundo e que já é o segundo na preferência nacional.   Faz  milionários, rende capa na revista d emaior circulação do país  (a quem diga que é a revista americana mais vendida no Brasil)  permite ainda  que role um documentário (Como Água) e transforma o efusivo lutador num garoto-propaganda que vende tudo o que anuncia.

Em que pese tudo isso, confessa-se profundamente triste ao constatar a inevitável e crescente substituição do grito de gol, pelos mata-leão, guilhotina, jab, joelhada e queda – parte integrante do vocabulário da mais recente febre nacional.

Hoje as arenas romanas nos causam asco. É a personificação da barbárie sancionada pela vontade popular. A catarse opera-se através do sofrimento alheio. Quanto mais excruciantes eram as dores, maior era a redenção dos assistentes. Dava-se a glorificação das vísceras expostas, dos membros decepados e do sangue oferecido à farta.

A civilização, esse monstro de inúmeras faces, desdobra-se emesforços e cria infinitas maneiras para que a dor seja aplacada sema produção de novas dores. Criamos a máxima de que deveríamosfazer aos outros o tanto que também nos fizessem e deixamos o tempoa passar. É bem verdade que jamais seguimos à risca a regra queerigimos, mas ela estava lá, tal e qual um farol, a nos guiar em meio às noites tempestuosas. Era norma programática: não dá pra fazer agora, mas quem sabe um dia...

Mas eis que uma nova arena é construída. Há uma sigla encimando a entrada: UFC.

Há corpos envoltos em sangue e hematomas pra dar e vender. Tiros de meta são cobrados e a bola – pasmem – é a cabeça do adversário. Mata-leões são aplicado com a finalidade de levar o oponente ao desmaio. E as joelhadas. Ah! As joelhadas. Que maravilha!

Não há, creiam, mera coincidência entre uma rinha de galo e um ringue de UFC. Dois animais lutam pela vida e outros tantos assistem extasiados.

Tantos séculos de incessante busca pela civilização e ao final o que temos é o UFC.

Não tarda e teremos UFC em nossas olimpíadas escolares. Sim! É importante que a barbárie se acerque do berço. Quanto mais cedo melhor, né não?

Deixo de mencionar aqui o nome do pobre rapaz que é capa da revista supramencionada. Isso não é esporte e ele não é um esportista. E não há que se macular esse espaço onde, bem sabemos, já desfilou Adílio, Andrade, Leandro, Zizinho, Índio e tantos outros.

Volto a olhar o semblante triste da Diretora, penso nas crianças que se perderão, penso no futuro que não teremos e lamento muito, muito mesmo. Mas não me furto a constatar que a opção preferencial pelo UFC diz muito acerca do tanto de humano que julgamos abrigar em nossos ventres.

Ou não?

Diz aí, Joel

quinta-feira, 15 de março de 2012

R10 é o cacete: R78

Pegaram-nos, de fato

Por Tadeu dos Santos



Em 05 de dezembro de 2011, morreu Hubert Sumlin e, em 20 de janeiro de 2012, ficamos sem Etta James.

Ambos estão presentes no filme Cadillac Records de 2008, cujo foco é a história da Gravadora Chess Records pertencente a Leonard Chess.

Dentre outros, a gravadora revelou Muddy Waters (grande representante doBlues de Chicago), Little Walter (um dos maiores gaitistas dahistória) e Chuck Berry.

Hubert Sunlin era guitarrista de Howlin' Wolf e é famosíssima a tentativa de Muddy Waters no sentido de arregimentar o músico para tocar em sua banda.

Recentemente deu a participar de todas as versões de Crossroad comandadas por Eric Clapton. Já numa das últimas apresentações fazia-se acompanhar de enfermeira e alguns aparelhos respiratórios. Esteve no palco com B.B. King, Eric Clapton, Jimmie Vaughan, Roberto Cray e Buddy Guy.

A respiração era difícil, os movimentos pouco desenvoltos e a mão um tanto quanto reticente. Mas permanecia intacta a vontade de tocar e inteiramente preservado o velho amor à música.

Hubert Sumlin não era um músico popular. Não era dado ao entorpecimento de fãs e tampouco ao muito amealhar moedas. Tocava blues, música, que ao que tudo indica, toca apenas àqueles que de dores sabem um bom bocado.

Aproveitem as vantagens da informática (não são tantas quanto as apregoadas por aí). Visitem o Youtube e peçam cross road – Hubert Sumlin e não percam a oportunidade de ver um músico rendendo loas ao seu instrumento. Coisa rara nos dias que seguem.

Há quem diga que o blues é apenas um homem, que ao sofrer, canta.  Há, assim, dor por trás do canto. Talvez por isso Etta James possa ser considerada uma das grandes divas do Blues. Como sofreu a criatura que, filha de prostituta, de quebra, foi renegada pelo pai.

Beyoncé é a atriz designada para interpretar Etta James e ao cantar permit eque vislumbremos a distância que separa as moças que sabem cantar(Beyoncé, Whitney Houston) das mulheres que são grandes cantoras (Etta James, GladysKnight).

Neste ponto cabe a indicação de um show em DVD em que estão presentes B.B. King, Albert King, Eric Clapton, Stevie Ray Vaughan, GladysKnight, Etta James e Chaka Khan. Confiram Gladys cantando “PleaseSend Someone to Love” e a grande Etta, ao lado de B. B. King, mandando ver em “Something's got a hold on me” ou ainda “Ain'tnobody's business”.

Engraçado,não? Duas estrelas de primeiríssima grandeza apagaram-se, o mundo ficou sensivelmente mais sem graça e sequer nos demos ao trabalho de perceber. Ainda assim, fica o registro e salve Michel Teló.  

segunda-feira, 12 de março de 2012

Se?

Por  Tadeu dos Santos



O se não joga, reza o adágio popular. E o dito é antigo e como sabemos tem o tempo o condão de conferir ares de verdade às mais rematadas mentiras. Não é, porém, este o caso.

Por mais que sejamos tentados a mandar os fatos às favas e moldar a realidade na exata medida de nossos mais recônditos desejos, eles permanecem lá, incólumes.

Isso, claro, quando as coisas não se passam no escuro de uma sala de cinema. Ali é possível um retorno ao passado com direito à moldagem do futuro. E essa possibilidade de revisionismo nos torna seres prenhes de potência, haja vista que, mais do que prever o futuro, o transformamos.

Mascomo já dizíamos o se não joga e assim é que ano após ano, a fatídica bola de Gigia passa entre a trave e o goleiro Barbosa parana sequência ir ter às redes. Esse determinismo do passado faz com que tape após tape, o salto de Barbosa se dê com aquele átimo de segundo de atraso.

Contam que à saída do estádio era possível ouvir o arrastado dos sapatos tamanho o silêncio provocado por aquela derrota.

E num país onde o perdão recai até mesmo sobre torturadores não houve piedade que lograsse alcançar Barbosa. Há tempos vi um documentário em que ele, com suas enormes mãos,  vez mais estampava os olhos opacos e a voz claudicante que nas entrelinhas rogava pelo perdão desnecessário.

Imaginemos ainda que por apenas um segundo, que o pulo de Barbosa foi tempestivo e que a bola foi devidamente encaixada por nosso guarda-metas.  

Os fogos e a algazarra seriam a trilha sonora que substituiria o lento arrastar dos pés que então se fez ouvir.

Danilo,Zizinho, Bauer, Ademir de Menezes, Friaça e Chico seriam deuses em nosso panteão e infindáveis seriam os cultos que a eles dirigiriamos. 

Seríamos temidos em 1954, sobretudo com o reforço de Nilton Santos, Djalma Santos, Didi e Julinho. Não teríamos o respeito reverencial demonstrado no jogo contra a Hungria e sem a necessidade premente de purgar o complexo de vira-latas de que nos falava Nélson Rodrigues, menor seria o culto dirigido a Pelé.

Não me detenho e assim é que não me furto a imaginar o acachapante resfriado que lançou à cama o indomável Paulo Rossi, justo à véspera do fatídico Brasil x Itália.

Teríamos então a vitória do que se passou a denominar futebol-arte.  Nasequência, a exemplo de um daqueles conhecidos efeitos visuaisveríamos o lento desaparecimento de Dunga e de todos os demais volantes que infestaram nossos estádios.

Não nos sentiríamos tentados a macaquear estilos estranhos ao nosso jeito de jogar futebol. Maradona seria menor do que é, eis que teriaa sombra de Zico.  Estaríamos livres da geração de 1990, 1994 e2010.

Mas o se não joga e, portanto, nada há a ser feito. Penso nisso erecordo a falta cobrada por Petkovick e a cabeçada de Rondinelli e me sinto um tanto quanto consolado. O se não joga e às vezes isso faz um bem danado.

domingo, 11 de março de 2012

2 x 0 resto do Rio

Não entenderam esses gringos que obra que anda não come cobra?

Por Tadeu dos Santos


Dia desses fui assaltado por uma tormentosa dúvida. Perquiria-me acerca de qual evento de importância mundial realizar-se-ia em 2012. Ao cabo de algumas elucubrações conclui que sim, em 2012 teremos olimpíadas e mais, elas acontecerão em Londres.

Ato contínuo,verifiquei que em que pese a envergadura do acontecimento, dele nada sei. Temos chances de medalhas em que modalidades? Competiremos com ovoley masculino e feminino? Veremos Marta? E o basquete vamos com as duas (feminino e masculino) ou com nenhuma? E quanto à natação? Eo atletismo?Quanta desinformação!!! O que se passou? Desliguei-me do mundo ou ele de mim?

Há por aí umamiríade de fontes de informação (CBN, Google, Wikipedia, jornais,TV a cabo) e, no entanto, eis-me aqui na condição de invólucrodestituído de todo e qualquer conteúdo, formulário à espera depreenchimento, uma mera folha em branco.

Em Matrix uma“realidade” criada artificialmente sobrepunha-se à “verdade”subjacente. O que temos aqui, porém, é bem mais grave. Ausente o plim-plim quedam silentes e triturados os fatos e à costumeiradistorção, tem-se a inação.

Nélson Rodriguesmandava à danação os fatos que infirmassem suas opiniões. Aqui o silêncio aniquilante torna dispensável a danação. Tristes trópicos esses em que o pensar carece de autorização das agência de informação.

Relegados os jogos olímpicos à condição de não-ser, tudo o que nos resta édiscutir as denominadas “obras da copa”.

Dados estatísticos atestam que tais eventos são sempre deficitários. Ou seja, ainda que realizadas em países “normais” as copas dão prejuízo. Ponha-se, pois, a imaginar o que não teremos por estessítios em que canteiros de obra significam propina esuperfaturamento. Quando irão dicionarizar essa acepção?

Iniciemos porafirmar que eu sei, você sabe e até mesmo aquele cachorro que ensaia olhadas lânguidas em direção àquela cadela de pelosbrancos e olhos cor de mel também sabe que as ditas obrasenriquecerão políticos e empreiteiros. A dinheirama, aliás, será de tal monta que até os membros dos escalões intermediários porão,como vetustamente se diz, os seus respectivos bois à sombra.

Corroborando o que vimos de afirmar, o informe que segue está na internet no portalG1, ei-lo:

“ levantamentodo G1 a partir de relatório do TCU; do Portal da Copa, do Ministériodo Esportes e dos sites oficiais da Copa nos 12 estados-sede indicaque a soma das diferenças entre o maior e o menor valor apontadopara cada estádio chega a R$ 1,723 bilhão – cifra suficiente parareformar dos Maracanãs.

Além da ArenaCarioca, outros nove estádios (Mineirão, Estádio Nacional deBrasília, Arena Pantanal, Castelão, Arena da Amazônia, Arena dasDunas, Beira-Rio, Arena Pernambuco e Fonte Nova) registraramdiferença entre os valores divulgados por suas respectivasadministrações e os dados do governo federal”.

O número de sedes é exagerado e muito acima da efetiva necessidade e a capacidade dos estádios ora construídos em muito supera a média depúblico de seus respectivos campeonatos estaduais.

Fico de cá apensar que os Estádio Nacional de Brasília, Arena Pantanal e Arenada Amazônia logo estarão cedidos não a um time de futebol, aexemplo do Engenhão, mas sim à Igreja Universal ou alguma de suascongêneres.

E assim o culto aser celebrado nesses estádios não terá a deusa Bola pordestinatária. Vidas eternas serão concedidas a troco do vil metalofertado na troca dizimal.

Em a “Históriada Loucura”, Foucault localiza o isolamento do louco a partir doespraiamento da razão (Descartes). A razão traz consigo o seuoposto, a desrazão.

AnalistasMarxistas da obra Foucaultiana chegaram a afirmar que o isolamento do louco operava-se a  partir da necessidade da homogeneidade ínsita ao capitalismo. A lógica da produção não admitiria a desrazão, daí o seu isolamento.

Por aqui aloucura não tem base filosófica ou econômica. Ela se faz caudatária do golpismo, da falcatrua, do nepotismo, da propina.

Convenhamos que há algo de insano na nossa cotidiana passividade em face dos desmandos a que estamos submetidos.

E nesse cenáriode incomum desfaçatez o atraso é apenas e tão somente a cereja que falta pra coroar o descalabro. Atrasos possuem o condão de inflarpropinas e potencializar superfaturamentos. Assim sendo, não seaçode preclaro leitor. Onde se lê atraso, leia-se majoração deganhos ilícitos.

Prossigamos.

O Código Penal,ao definir quadrilha preceitua em seu art. 288, que, in verbis“Associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para ofim de cometer crimes”. Isto posto, ponhamo-nos a contar:

1 – RicardoTeixeira
2- Blatter
3- Havelange
4 – Valcke

Feita e refeita aconta a conclusão inelutável é de que sim, esses senhores, tal equal a mão à luva, enquadram-se nos ditamos do art. 288 do CódigoPenal. Assente, todavia, o princípio de que dinheiro além decomprar amor sincero, é também servível à aquisição de reputação ilibada, não haverá enquadramento que abranja essagente. Nem por isso, porém, os crimes deixarão de ser cometidos.

Mas eis que umdos indômitos senhores, insatisfeito com os “ganhos” que aintermediação permite auferir, meteu-se a ofender a mãe-pátria atiçando nossos brios nacionalistas.

Mas que históriaé essa de pé no rabo pra ver se anda? Já não estava tudo muitobem combinado? Não entenderam esses gringos que obra que anda nãocome cobre? E a nossa soberania? Onde vamos parar com tamanhosimpropérios. Agora mesmo nossa “presidenta” anda por sítios da“velha senhora” a ditar lições de boa governança e por aquihavemos de aturar o orgulho extemporâneo desse tal de Valcke.

Por favor, nãome desassossegue o espírito e nunca, never, jamais entregue obras emdia. O atraso é fundamental ao sucesso do empreendimento. Entendes?

Leio tudo isso eacorrem-me à mente textos em que a soberania era solenemente lançadaaos limbos da história. Sim! A globalização ultimava o fim dasfronteiras. O comércio será rápido e amplo, em breve serádesfeita a Torre de Babel, teremos blocos econômicos em queinteresses bem representados substituirão a antiquada soberania.

Mais recentementeli textos produzidos por intelectuais dos países europeus em criseem que se opera a ressurreição da soberania. O assunto é parteintegrante da pauta que informa as próximas eleições na França.

Por estas plagasa ideia de soberania vem à baila sempre que a elite precisaarregimentar apoio popular à defesa de seus interesses escusos.

Tudo isso me fazlembrar da pertinência da frase de Samuel Johnson, a saber, “onacionalismo é o último refúgio de um canalha”.

Não me comovo.

Somos como a talcriança que assiste ao desfile e constata a miríade de reis nus quese julgam envoltos em finos tecidos. Trabalhamos cinco meses por anosapenas e tão somente para pagar impostos (os que auferem até 2salários mínimos trabalham 6). É, pois, o suor que dispendemostrabalhando que bancará a farra denominada “obras da copa”.

Na realidade, nãoqueremos copa. Operaremos a multiplicação dos vexames. Andamos apassar vergonha em campo e agora conheceremos o rubor também fora dele.

Impassíveis e doalto de nossas lajes assistiremos à farra do boi. Concluiremos então que representatividade é conceito cujo maior óbice é a naturezahumana (acaso de fato exista algo que se pareça com isso), que faríamos melhor uso dos tais 5 meses de impostos e cacete... como é bom esse time da Espanha, lembra um time que se perdeu numa dessas derrotas da vida.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Quanta Omissão Cabe à Verdade?



MOÇÃO DE APOIO  DAS  MULHERES À COMISSÃO DA VERDADE

A gente conta a História como quem conta  histórias.  Decorrência de nossa tradição oral. Histórias de Maria, de Rose, de Nair, de  Amelinha, de Clara, de Clarice, de Eleonora, de Dilma, e também de João, de Vlado, de Pedro, de  Paulo, de Chico, de Márcio, de José...

Uma geração de homens e mulheres valorosos  dedicaram os  melhores anos de sua vida para estabelecer a democracia que vivemos hoje. Escolheram os caminhos mais diversos – a atividade parlamentar  (enquanto ainda  não proibida) a greve, o exílio ou auto-exílio, o estudo, a  discussão, a  resistência, ), a luta armada,  a solidariedade, o apoio, a mobilização nas ruas, mesmo que  proibidas.

Tempos em que se restringiu a liberdade de  expressão, de  reunião, de informação, de ir-e-vir, de pensar e de agir, da  população. Tempos  em que as pessoas que te visitavam tinham que se identificar com  o zelador, que  passava a lista à polícia. Tempos em que não se podia votar,        eleger, decidir,  escolher. Enquanto isso, nos porões da ditadura militar, eles se  valeram de sua        posição de autoridade, de representantes do Estado, para  prender, torturar,  fazer desaparecer.
Mulheres foram presas, aguentaram requintes  de crueldade,  sofrendo também constrangimentos, estupros, ameaças de ou  torturas inomináveis  nascidas de mentes perversas, torturas de seus filhos ante os   seus olhos. 

Foi também das mulheres a iniciativa de  construir o  Movimento Feminino pela Anistia, que logo foi engrossado pela sociedade e, em  pouco tempo, fomos ficando tantos e tantas, que não houvera        saída senão redemocratizar o país e anistiar a todos.

Muitos anos depois, o Congresso finalmente aprova a criação  de uma Comissão da Verdade, para averiguar as ignomínias  não-esclarecidas. A mídia começa a se ocupar do caso.

O general Rocha Paiva, atribuindo-se o papel de porta-voz,  se permite ironizar e duvidar do relato de tortura da atual  presidenta Dilma,  da causa de morte do Wladimir Herzog, e questionar a  legitimidade da  estruturação da Comissão.

Pronunciamentos  de  militares sobre duas mulheres  ministras – Maria do Rosário e Eleonora Menicucci – bem como questionando  a autoridade do  Ministro da Defesa, tentam criar um fato e um constrangimento  político.

Por isso nós, mulheres reunidas neste 8 de  março – dia  internacional da mulher – vimos a público afirmar o nosso apoio  integral à  Comissão da Verdade.

Que nossa história seja finalmente revelada, que a verdade  seja estabelecida, que se revele o destino dos desaparecidos,  que se iluminem  os porões.

Que se restabeleça a memória e a história, para que não se perpetue a prisão arbirária e a tortura ou jamais se reinstitua os mesmos  mecanismos de exceção. 


Observatório da Mulher
SOF – Sempre Livre Organização Feminista
Marcha Mundial de Mulheres

quinta-feira, 8 de março de 2012

Vedor

Por Máximo


Ontem, na globonews, Chico Buarque cancela o senso comum, chega a contrariar suas principais intérpretes que o apontam profundo conhecedor da alma feminina. Iria escrever alma com aspas, mas as palavras foram feitas pra dizer, conforme Graciliano. Em substituição à alma, que pode ser qualquer coisa, prefiro desconhecimento, que também pode ser, mas antes, necessita investigação. E é o que Chico Buarque fez, continua a fazer, talvez não pare. Música é feminina, palavra também. Nunca tentei tocar nada, pois, canhoto, a inversão das cordas no violão era uma exigência muito melhor substituída pela pelada, outra palavra feminina, numa rua de Vila Isabel.

Noel, aliás, também se rendia. Um mistério que também ajudou na admiração de Chico Buarque pelo nosso vizinho. Niemeyer conseguiu chegar perto através da curva, pois gostar de mulher não é o mesmo que gostar da Rachel, da Márcia, da Irene, da Bete, da Taís, da Daniele, da Iara. Um exercício de construção incompatível ao ângulo reto, e a curva que Niemeyer encanta é maviosa, sinuosa, Cátia.


Chico Buarque conheceu as mulheres de Atenas andando pela 28. Deparou-se com Noel, cujo monumento lá no início da avenida facilita o humor, lembrando vários sorrisos, da Rachel, da Márcia, da Irene, da Taís, da Daniele, da Iara, do tom rasgado da Bete num bar em Saquarema ao responder ao pobre-diabo sobre se “mulher direita não tem ouvido”:

“Vai à merda, babaca!”

O caminho de Chico, antes de Atenas, é seguir o próprio pai, presença constante nas rampas da UERJ. Atravessa a Francisco Xavier, ao invés de descer a 28. Assim, o tricolor Chico Buarque decide que o que importa é rubro-negrir a beleza. Qual a cor? Vermelha, negra, pensa ao erro da palheta, ora a prova, ora a cadeira. A coxa despe as cores, afastando o vestido, na cadeira lá da frente. UERJ, Machado, vestibular quase cancelado. Todos os cabelos seriam bons se juntos trançados. O joelho dela é linha sinuosa, Niemeyer – repito – lenta, continua a coxa, incólume.

Linda Negra, a Rubro-Negrir a beleza.

Viestes à vida á pé. Fomos juntos à filha do prestes, entre olés de poças d’água, e a protegi tal qual Noel à língua que dizia que passou de português.

Carioca.

Rachel, Márcia, Irene, Bete, Magui, Daniele, Taís, Ana, Iara, numa palavra, definitiva:

Cátia.

SRN